Actualizações Clínicas em Saúde Reprodutiva

Quem se submete a um aborto durante ou após a 13.ª semana de gestação?

Última revisão: 17/10/2025

Informações essenciais:

  • As pessoas que se apresentam para ser submetidas a um aborto durante ou após a 13.ª semana de gravidez têm uma maior probabilidade do que aquelas que se apresentam em etapas anteriores da gravidez de ser jovens ou vítimas de violência, ter detectado a sua gravidez mais tarde, ter sentimentos ambivalentes quanto à decisão de fazer um aborto e/ou ter barreiras financeiras e logísticas à prestação de cuidados. Além disso, as mulheres podem não ter indicações médicas ou fetais para um aborto que sejam aparentes antes da 13.ª semana de gestação. As razões para se apresentarem na 13.ª semana ou depois parecem ser semelhantes em vários países e culturas e afectam desproporcionalmente pessoas com poucos recursos.

Qualidade da evidência: Baixa

Epidemiologia do aborto durante ou após a 13.ª semana

Ainda que os abortos durante ou após a 13.ª semana de gestação constituam uma minoria (cerca de 10% a 15%) do total de abortos a nível mundial, são responsáveis pela maior parte das complicações graves relacionadas com o aborto (Harris & Grossman, 2011; Jatlaoui et al., 2019; Loeber & Wijsen, 2008). Em ambientes mais restritivos ou onde o acesso ao aborto seguro é limitado, a apresentação durante ou após a 13.ª semana de gestação para assistência pós-aborto é mais comum. No Camboja, 17% de pessoas que necessitam assistência pós-aborto apresentam-se durante ou após a 13.ª semana de gestação, na Etiópia 38% e no Quénia 41%. (African Population and Health Research Center et al., 2013; Fetters et al., 2008; Gebreselassie et al., 2010.

Por que as pessoas precisam de abortos durante ou após a 13.ª semana?

Idade jovem: As pessoas jovens têm uma probabilidade desproporcionada de procurar o aborto durante ou após a 13.ª semana de gestação (Espinoza, Samandari, & Andersen, 2022; Kebede et al., 2025). Nos Estados Unidos, 23,7% das jovens com menos de 15 anos e 12,4% das adolescentes de 15 a 19 anos que procuram serviços de aborto fazem-no após a 13.ª semana de gestação (Jatlaoui et al., 2019). Na Cidade do México, as adolescentes representavam 9% do total de mulheres que procuraram fazer um aborto entre 2007 e 2015; para além disso, representaram também 13% das mulheres que procuraram fazer um aborto depois da 12.ª semana de gestação (Saavedra-Avendano et al., 2018). Um inquérito realizado nos EUA junto de pessoas que procuravam serviços de aborto revelou que muitos adolescentes não sabiam onde recorrer a esses serviços, o que levava a atrasos (Chiu, Braccia e Jones, 2024).

Detecção tardia da gravidez: Um factor de risco comum em todos os estudos de mulheres que se apresentam para o aborto durante ou após a 13.ª semana é o reconhecimento tardio da gravidez. A má compreensão e sensibilização para os sinais e sintomas da fertilidade e da gravidez afecta o reconhecimento individual da gravidez (Somefun, Harries, & Constant, 2021), particularmente entre os jovens (Chiu, Braccia, & Jones, 2024; Espinoza, Samandari, & Andersen, 2020). Ausência de sinais e sintomas de gravidez, irregularidade menstrual, uso de contraceptivos ou amenorreia após uma gravidez recente podem ocultar os sinais físicos da gravidez e atrasar o diagnóstico da gravidez (Constant et al., 2019; Drey et al., 2006; Foster, Gould, & Biggs, 2021; Foster & Kimport, 2013; Gallo & Nghia, 2007; Harries et al., 2007; Ingham et al., 2008; Jones & Jerman, 2017; Kebede et al., 2025; Mehiretie et al., 2025; Purcell et al., 2014). Num estudo de caso-controlo nos Estados Unidos, as mulheres que procuraram fazer um aborto após a 20.ª semana de gestação tinham uma probabilidade muito mais elevada de já estarem grávidas há oito ou mais semanas no momento em que descobriram que estavam grávidas (68%), em comparação com as mulheres que fizeram aborto antes da 13.ª semana de gestação (12%) (Foster & Kimport, 2013).

Ambivalência e/ou dificuldade em tomar a decisão de abortar: Algumas mulheres precisam de tempo para tomar uma decisão devido a pressões sociais, receios, atitudes religiosas e mudanças no relacionamento. Para outras mulheres, novas circunstâncias (como abandono pelo parceiro) fazem com que algumas procurem um aborto depois de inicialmente planearem continuar a gravidez (Foster & Kimport, 2013; Gallo & Nghia, 2007; Harries et al., 2007). Família e amigos desencorajadores também podem atrasar a procura de cuidados (Waddington, Hahn, & Reid, 2015).

Barreiras financeiras e logísticas: Pobreza (Goyal et al., 2020; Sium et al., 2022; Usta et al., 2008), estatuto de imigrante (Gonzalez-Rabago et al., 2017; Loeber & Wijsen, 2008), residência em zonas rurais (Bonnen et al., 2014; Kebede et al., 2025; Mehiretie et al., 2025; Ushie et al., 2018), falta de emprego (Gonzalez, Quast, & Venanzi, 2019; Van de Velde et al., 2019) e falta de seguro de saúde (Raidoo et al., 2020) são factores de risco para a apresentação aos cuidados de aborto durante ou após a 13.ª semana de gestação. Além disso, por se tratar de um aborto tardio e este ser muitas vezes mais caro, os atrasos podem estar relacionados com a angariação de dinheiro suficiente para cobrir o custo do procedimento (Foster & Kimport, 2013; Kiley, Yee, Niemi, Feinglass, & Simon, 2010). Os serviços de aborto durante ou após a 13.ª semana são oferecidos num número limitado de unidades sanitárias e para muitas mulheres a logística da viagem pode ser difícil (Goyal et al., 2020; Ludwigson et al., 2024; Sium et al., 2021; White et al., 2021). Num estudo de caso-controlo, as mulheres que se apresentaram nos serviços de aborto com mais de 20 semanas de gestação, foi muito mais provável que tivessem viajado mais de três horas para aceder aos serviços do que aquelas com gestações menos longas (Foster & Kimport, 2013). As pacientes com gravidez de 13 ou mais semanas de gestação podem ser encaminhadas por outros provedores de saúde ou ter dificuldade em encontrar um provedor de cuidados de aborto antes de finalmente acederem aos cuidados (Drey et al., 2006; Harries et al., 2007). As mulheres também podem precisar de viajar para fora do seu próprio país para aceder ao aborto legal após a 13.ª semana de gestação ( Cameron et al., 2016; Loeber & Wijsen, 2008).

Indicações fetais: O diagnóstico pré-natal de anomalias fetais ocorre normalmente após as primeiras 12 semanas de gravidez e as mulheres podem tomar a decisão de interromper a gravidez com base no diagnóstico (Edling, Lindstrom, & Bergman, 2021; Lyus et al., 2013).

Indicações maternas: As condições médicas que se agravam durante a gravidez ou uma nova condição que surge durante a gravidez podem colocar em perigo a vida ou a saúde da pessoa grávida (Kiver, Altmann, Kamhieh-Milz, & Weichert, 2019). A pré-eclâmpsia grave ou ruptura prematura de membranas podem exigir a interrupção da gravidez para salvar a vida da pessoa grávida (American College of Obstetricians and Gynecologists, 2015).

Vítimas de violência: as vítimas de violência têm um risco mais elevado de se apresentarem tardiamente (Colarossi & Dean, 2014; Perry et al., 2015). As adolescentes e jovens, em especial as que têm entre 10 e 14 anos, são mais susceptíveis de ter uma gravidez provocada por violação, incesto ou sexo transaccional, e de se apresentarem para aborto numa fase posterior da gravidez (Espinoza, Samandari, & Andersen, 2020).

Falha de aborto: Embora as falhas sejam raras, é possível que as pessoas que apresentam continuação da gravidez após o aborto realizado antes da 13.ª semana não descobrirem que ainda estão grávidas até depois da 13.ª semana de gestação (Gallo & Nghia, 2007).

Crenças culturais: Em casos raros, existem crenças locais de que fazer um aborto durante ou após a 13.ª semana é mais seguro do que realizá-lo durante as primeiras 12 semanas de gravidez, fazendo com que se adie a procura dos serviços (Marlow et al., 2014). Dados de um inquérito domiciliar nacionalmente representativo realizado na Índia revelaram que as mulheres que não tinham um filho do sexo masculino eram mais propensas a adiar um aborto até depois da 13.ª semana (Shekar, Sahoo, & Das, 2024).

Referências

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