Recomendação:
- Recomenda-se uma combinação de bloqueio paracervical, anti-inflamatórios não esteróides (AINE) e analgésicos narcóticos, com ou sem ansiolíticos.
- Deve oferecer-se sedação intravenosa, se disponível.
- Devem ponderar-se os riscos acrescidos de anestesia geral relativamente aos benefícios.
Força da recomendação: Forte
Qualidade da evidência: Muito Baixa
Dor durante a dilatação e evacuação
Uma duração mais longa da gravidez no momento do aborto está associada a uma pontuação mais elevada de dor relatada durante a dilatação e evacuação (D&E) (Dzuba et al., 2022). Em gestações mais avançadas, D&E requer mais dilatação cervical pré-operatória e operatória, um tempo de procedimento mais longo e manipulação uterina mais profunda.
Métodos de controlo da dor
Em grande parte, faltam estudos comparativos sobre o controlo da dor durante. Os estudos existentes examinam o controlo da dor durante a colocação do dilatador osmótico antes de uma D&E, o efeito dos medicamentos adjuvantes na dor pós-procedimento entre pessoas que recebem anestesia geral ou sedação profunda intravenosa, ou focam-se, em vez disso, nas estratégias de segurança de controlo da dor durante a D&E. As declarações de consenso internacional geralmente focam-se na quantidade mínima de anestesia a que uma D&E pode ser realizada para assegurar o acesso em unidades sanitárias de nível mais baixo (Royal College of Obstetricians and Gynaecologists [RCOG], 2022; Organização Mundial da Saúde [OMS], 2024).
Em estudos que reportam sobre programas de D&E, o controlo da dor geralmente consiste na sedação intravenosa com uma combinação de narcóticos e ansiolíticos e um bloqueio paracervical (Altman et al., 1985; Castleman et al., 2006; Jacot et al., 1993). O Ipas recomenda uma combinação de bloqueio paracervical, AINE e analgésicos narcóticos, com ou sem ansiolíticos (Edelman e Kapp, 2017). Em locais onde haja disponibilidade, deve-se oferecer AINE, bloqueio paracervical e sedação intravenosa (Jackson & Kapp, 2020; RCOG, 2022; OMS, 2024).
Anestesia local
Consulte a secção 2.5 Bloqueio Paracervical.
Medicamentos
Não há estudos de avaliação da eficácia dos medicamentos para a dor por via oral, intramuscular ou intravenosa durante o procedimento de D&E. Um estudo revelou que pessoas que receberam o AINE cetorolaco por via intravenosa em combinação com sedação profunda intravenosa ou anestesia geral durante o seu procedimento de D&E reportaram dor pós-procedimento significativamente menor do que pessoas que não receberam a medicação (Liu & Flink-Bochacki, 2021). Estes dados devem ser interpretados com cautela, pois o estudo não foi concebido para abordar esta comparação, no entanto, estudos sobre aspiração intra-uterina constataram, de forma consistente, que a administração de AINE por via oral ou intramuscular pré-procedimento reduz a dor das pessoas durante e após o procedimento (Braaten et al., 2013; Renner et al., 2010; Romero, Turok, & Gilliam, 2008; Suprapto & Reed, 1984; Wiebe & Rawling, 1995).
Sedação intravenosa
Apenas um ensaio aleatorizado avaliou a eficácia da sedação moderada intravenosa durante a D&E, revelando que a sedação moderada com fentanilo e midazolam foi significativamente mais eficaz do que o óxido nitroso inalado para o controlo da dor em mulheres entre 12ª – 16ª semana de gestação que também receberam ibuprofeno pré-procedimento e bloqueio paracervical (Thaxton et al., 2018). Dados adicionais dos estudos de avaliação da eficácia da sedação intravenosa para controlo da dor durante a D&E. Contudo, estudos sobre aspiração intra-uterina constataram que a sedação intravenosa usando uma combinação de narcóticos e ansiolíticos é um método eficaz de controlo da dor e melhora a satisfação com o procedimento de aborto (Allen et al., 2009; Allen et al., 2006; Wells, 1992; Wong et al., 2002). Os estudos que avaliaram a segurança da sedação intravenosa com fentanilo e midazolam em combinação com bloqueio paracervical durante D&E constataram taxas de grandes complicações relacionadas ao procedimento inferiores a 1% (Racek, Chen, & Creinin, 2010), e nenhum evento adverso adicional relacionado com a anestesia (Gokhale et al., 2016; Wilson, Chen, & Creinin, 2009; Wiebe et al., 2013). Um estudo seleccionou aleatoriamente 126 participantes que receberam fentanil e midazolam para uma dilatação e evacuação (D&E) entre a 14.ª e a 19.ª semana de gestação, atribuindo-lhes um tratamento adicional com gabapentina ou placebo. O estudo não constatou diferenças na intensidade máxima de dor reportada entre os dois grupos; no entanto, as participantes que receberam gabapentina sentiram menos dor intraoperatória e manifestaram maior satisfação (Brant et al., 2022). A sedação profunda intravenosa com propofol e sem intubação é segura e tem poucas complicações em ambulatório, sem risco de aspiração pulmonar (Aksel et al., 2018; Dean et al., 2011; Gokhale et al., 2016; Mancuso et al., 2017).
Administrar sedação intravenosa aumenta os custos, a complexidade e os riscos potenciais de um procedimento de aborto e requer um provedor de cuidados com formação adequada e equipamento para a monitoria da paciente (Cansino et al., 2021). O incremento de monitoria necessária para a sedação intravenosa segura requer investimento das unidades sanitárias em termos de pessoal, formação e equipamento. Para mais informação sobre a definição dos níveis de sedação, incluindo anestesia geral, consulte o Anexo B: Contínuo de profundidade da sedação: Definição de anestesia geral e níveis de sedação/analgesia.
Anestesia geral
Embora eficaz para controlo da dor durante o procedimento, a anestesia geral aumenta os custos, a complexidade e os riscos potenciais associados ao aborto e não se recomenda para procedimentos de rotina (Atrash, Cheek, & Hogue, 1988; Bartlett et al., 2004; MacKay, Schulz, & Grimes, 1985; RCOG, 2022; OMS, 2024). Para mais informação sobre a definição dos níveis de sedação, incluindo anestesia geral, consulte o Anexo B: Contínuo de profundidade da sedação: definição de anestesia geral e níveis de sedação/analgesia.
Controlo não farmacológico da dor
Os medicamentos para a dor e o bloqueio paracervical devem ser suplementados com técnicas de apoio para reduzir a dor e a ansiedade. Abordagens úteis podem incluir educar as pacientes sobre o que esperar durante o procedimento; realizar o procedimento num ambiente limpo e privado com provedores que dêem apoio; dar apoio verbal; usar uma técnica cuidadosa e eficiente; e aplicação de uma compressa quente ou botija de água quente no baixo-ventre na sala de recobro (Akin et al., 2001).
Recursos
Tabela de medicamentos para a dor
Contínuo de profundidade da sedação: Definição de anestesia geral e níveis de sedação/analgesia[BP8.1]
Referências
Akin, M. D., Weingard, K. W., Hengehold, D. A., Goodale, M. B., Hinkle, R. T., & Smith, R. P. (2001). Continuous low-level topical heat in the treatment of dysmenorrhea. Obstetrics & Gynecology, 97, 343-349.
Aksel, S., Lang, L., Steinauer, J. E., Drey, E. A., Lederle, L., Sokoloff, A., & Carlisle, A. S. (2018). Safety of Deep Sedation Without Intubation for Second-Trimester Dilation and Evacuation. Obstetrics & Gynecology, 132(1), 171-178.
Allen, R.H., Fitzmaurice, G., Lifford, K. L., Lasic, M., & Goldberg, A. (2009). Oral compared with intravenous sedation for first-trimester surgical abortion: A randomized controlled trial. Obstetrics & Gynecology, 113(2Pt1), 276-283.
Allen, R. H., Kumar, D., Fitzmaurice, G., Lifford, K. L., & Goldberg, A. B. (2006). Pain management of first-trimester surgical abortion: Effects of selection of local anesthesia with and without lorazepam or intravenous sedation. Contraception, 74(5), 407-413.
Altman, A. M., Stubblefield, P. G., Schlam, J. F., Loberfeld, R., & Osathanondh, R. (1985). Midtrimester abortion with laminaria and vacuum evacuation on a teaching service. The Journal of Reproductive Medicine, 30(8), 601-606.
Atrash, H., Cheek, T., & Hogue, C. (1988). Legal abortion mortality and general anesthesia. American Journal of Obstetrics & Gynecology, 158(2), 420.
Bartlett, L. A., Berg, C. J., Shulman, H. B., Zane, S. B., Green, C. A., Whitehead, S., & Atrash, H. K. (2004). Risk factors for legal induced abortion-related mortality in the United States. Obstetrics & Gynecology, 103, 729-739.
Braaten, K.P., Hurwitz, S., Fortin, J., & Goldberg, A.B. (2014). Intramuscular ketorolac versus oral ibuprofen for pain relief in first-trimester surgical abortion: A randomized clinical trial. Contraception, 89(2), 116-121.
Brant, A. R., Reeves, M. F., Ye, P. P., Scott, R. K., Floyd, S., Tefera, E., & Lotke, P. S. (2023). Gabapentin as an adjunct for pain management during dilation and evacuation: A double-blind randomized controlled trial. Contraception, 118.
Cansino, C., Denny, C., Carlisle, A.S., & Stubblefield, P. (2021). Society of Family Planning clinical recommendations: Pain control in surgical abortion part 2-Moderate sedation, deep sedation, and general anesthesia. Contraception, 104(6), 583-592.
Castleman, L. D., Oanh, K. T. H., Hyman, A. G., Thuy, L. T., & Blumenthal, P. D. (2006). Introduction of the dilation and evacuation procedure for second-trimester abortion in Vietnam using manual vacuum aspiration and buccal misoprostol. Contraception, 74, 272-276.
Dean, G., Jacobs, A. R., Goldstein, R. C., Gevirtz, C. M., & Paul, M. E. (2011). The safety of deep sedation without intubation for abortion in the outpatient setting. Journal of Clinical Anesthesia, 23437-442.
Dzuba, I.G., Chandrasekaran, S., Fix, L., Blanchard, K., & King, E. (2022). Pain, side effects, and abortion experience among people seeking abortion care in the second trimester. Women’s Health Reports, 3.1, 533-542.
Edelman, A., & Kapp, N. (2017). Dilatation and evacuation (D&E) reference guide: Induced abortion and postabortion care at or after 13 weeks gestation. Chapel Hill, NC: Ipas.
Gokhale, P., Lappen, J. R., Waters, J. H., & Perriera, L. K. (2016). Intravenous Sedation Without Intubation and the Risk of Anesthesia Complications for Obese and Non-Obese Women Undergoing Surgical Abortion: A Retrospective Cohort Study. Anesthesia and Analgesia, 122(6), 1957-1962.
Jacot, F. R. M., Poulin, C., Bilodeau, A. P., Morin, M., Moreau, S., Gendron, F., & Mercier, D. (1993). A five-year experience with second-trimester induced abortions: No increase in complication rate as compared to the first trimester. American Journal of Obstetrics & Gynecology, 168(2), 633-637.
Jackson, E., & Kapp, N. (2020). Pain management for medical and surgical termination of pregnancy between 13 and 24 weeks of gestation: a systematic review. BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology, 127,1348-1357.
Liu, S.M, & Flink-Bochacki, R. (2021). A single-blinded randomized controlled trial evaluating pain and opioid use after dilator placement for second-trimester abortion. Contraception, 103(3), 171-177 .
MacKay, H. T., Schulz, K. F., & Grimes, D. A. (1985). Safety of local versus general anesthesia for second-trimester dilatation and evacuation abortion. Obstetrics & Gynecology, 66, 661-665.
Mancuso, A. C., Lee, K., Zhang, R., Hoover, E. A., Stockdale, C., & Hardy-Fairbanks, A. J. (2017). Deep sedation without intubation during second trimester surgical termination in an inpatient hospital setting. Contraception, 95, 288-291.
Racek, C. M., Chen, B. A., & Creinin, M. D. (2010). Complication rates and utility of intravenous access for surgical abortion procedures from 12 to 18 weeks of gestation. Contraception, 82, 286-290.
Renner, R.M., Jensen, J.T., Nichols, M.D., & Edelman, A.B. (2010). Pain control in first-trimester surgical abortion: A systematic review of randomized controlled trials. Contraception, 81, 372-388.
Romero, I., Turok, D., & Gilliam, M. (2008). A randomized trial of tramadol versus ibuprofen as an adjunct to pain control during vacuum aspiration abortion. Contraception, 77(1), 56-59.
Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. (2022). Best practice in abortion care. London: Royal College of Obstetricians and Gynaecologists.
Siddiqui, K. M., & Chohan, U. (2007). Tramadol versus nalbuphine in total intravenous anaesthesia for dilatation and evacuation. Journal of the Pakistani Medical Association, 57(2), 67-70.
Suprapto, K., & Reed, S. (1984). Naproxen sodium for pain relief in first-trimester abortion. American Journal of Obstetrics & Gynecology, 150(8), 1000-1001.
Thaxton, L., Pitotti, J., Espey, E., Teal, S., Sheeder, J. & Singh, R.H. (2018). Nitrous oxide compared with intravenous sedation for second-trimester abortion: a randomized controlled trial. Obstetrics & Gynecology, 132, 1182-7.
Wells, N. (1992). Reducing distress during abortion: A test of sensory information. Journal of Advanced Nursing, 17, 1050-1056.
Wiebe, E. R., Byczko, B., Kaczorowski, J., & McLane, A. L. (2013). Can we safely avoid fasting before abortions with low-dose procedural sedation? A retrospective cohort chart review of anesthesia-related complications in 47,748 abortions. Contraception, 87, 51-54.
Wiebe, E. R., & Rawling, M. (1995). Pain control in abortion. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 50(1), 41-46.
Wilson, L. C., Chen, B. A., & Creinin, M. D. (2009). Low-dose fentanyl and midazolam in outpatient surgical abortion up to 18 weeks of gestation. Contraception, 79, 122-128.
Wong, C. Y., Ng, E. H., Ngai, S. W., & Ho, P. C. (2002). A randomized, double blind, placebo-controlled study to investigate the use of conscious sedation in conjunction with paracervical block for reducing pain in termination of first trimester pregnancy by suction evacuation. Human Reproduction, 17(5), 1222-1225.
World Health Organization. (2024). Abortion care guideline, 2nd ed. Geneva: World Health Organization.
