Informações essenciais:
- A aspiração intra-uterina é eficaz e segura, com taxas de sucesso acima de 98% e taxas de complicações importantes abaixo de 1%.
Qualidade da evidência: Alta
Eficácia
Uma aspiração intra-uterina bem-sucedida não requer nenhuma intervenção adicional para esvaziar o útero. Num grande estudo realizado nos Estados Unidos baseado na observação de 11.487 abortos por aspiração nos primeiros três meses de gravidez, realizada por médicos, enfermeiras, parteiras e assistentes clínicos certificados, constatou-se que a necessidade de repetição da aspiração devido ao aborto incompleto era de apenas 0,28% e que a taxa de continuação da gravidez era de 0,16% (Weitz et al., 2013).
Segurança
Uma revisão sistemática realizada em 2015 analisou 57 estudos apresentando dados para 337.460 abortos por aspiração realizados antes da 14.ª semana de gestação na América do Norte, Europa Ocidental, Escandinávia e Austrália/Nova Zelândia (White, Carroll e Grossman, 2015). Complicações importantes que necessitaram de intervenções (tais como hemorragia requerendo transfusão ou perfuração necessitando de reparação) ocorreram em ≤ 0,1% dos procedimentos; sendo necessário o internamento hospitalar em ≤ 0,5% dos casos. Estudos abrangendo os diferentes quadros de provedores de saúde (assistentes clínicos, enfermeiras, parteiras, etc.) noutros locais apresentaram resultados similares (Hakim-Elahi, Tovell e Burnhill, 1990; Jejeebhoy et al, 2011; Warriner et al., 2006; Weitz et al., 2013). Em dois estudos que compararam profissionais de saúde de prática avançada recém-formados com médicos experientes (Jejeebhoy et al., 2011; Weitz et al., 2013), não se observou qualquer diferença nas taxas de sucesso ou complicações de aborto.
Um estudo de coortes retrospectivo realizado nos Estados Unidos comparou as taxas de complicações processuais durante aborto com aspiração intra-uterina realizado em ambulatório (sem internamento) até às 13 semanas e seis dias de gestação em mulheres com pelo menos uma comorbilidade médica (diabetes, hipertensão, obesidade, HIV, epilepsia, asma, doença da tiróide e perturbações hemorrágicas/de coagulação) com as das mulheres sem comorbilidades. A taxa geral de complicações—que incluíram perfuração uterina, perda sanguínea superior a 100 ml, laceração cervical e produtos da concepção retidos que necessitaram de repetição da aspiração—foi de 2,9%; não se verificou nenhuma diferença entre os dois grupos (Guiahi et al., 2015). Dois estudos de coorte retrospectivos, que incluíram conjuntamente 5288 procedimentos de aborto por aspiração realizados antes da 13.ª semana de gestação, não constataram diferenças nas taxas de complicações entre mulheres obesas ou com excesso de peso e peso normal (Benson et al., 2016; Mark et al., 2017).
Um estudo de coorte retrospectivo de base populacional realizado no Canadá em 2025, comparou as taxas de eventos adversos ocorridos no prazo de 42 dias após um aborto cirúrgico (tipo de procedimento não especificado) ou após a dispensa de uma prescrição para aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol (Liu & Ray, 2025). Os investigadores constataram que os eventos adversos graves (por exemplo, lesões em órgãos-alvo, internamento na unidade de cuidados intensivos, morte) ocorreram em 114 de 65 176 pacientes (0,2%) submetidas a um aborto cirúrgico em regime ambulatório até a 14.ª semana de gestação, e em 27 de 8 861 pacientes (0,3%) submetidas a um procedimento hospitalar em regime ambulatório até à 9.ª semana de gestação. Eventos adversos (por exemplo, hemorragia, retenção de produtos da concepção, transfusão) ocorreram em cerca de 3% das pacientes em ambos os grupos.
Mortalidade
Nos Estados Unidos, a taxa de mortalidade em todos os abortos legais induzidos entre 2013-2018 foi de 0,41 óbitos por 100.000 abortos reportados; as taxas de mortalidade desagregadas pelo tipo de aborto ou duração da gravidez não estão disponíveis (Kortsmit et al., 2021). Em comparação, durante o período de 2007-2016, a taxa de mortalidade dos partos com nados vivos nos Estados Unidos foi de 17 mortes por cada 100.000 nados-vivos (Creanga et al., 2017; Petersen et al., 2019). Uma análise secundária de dados que comparou as taxas de mortalidade associadas aos partos com nados-vivos com as dos abortos legais induzidos nos Estados Unidos constatou que o risco de morte por parto era 14 vezes maior do que o risco de morte por aborto (Raymond & Grimes, 2012). Na revisão sistemática acima referida, realizada em 2015, sobre a segurança da aspiração intra-uterina em vários países, não se reportou nenhuma morte (White et al., 2015).
| Upadhyay, 2015 | Weitz, 2013 | Jejeebhoy, 2011 | Warriner, 2006 | Hakim-Elahi, 1990 | |
| Número de mulheres | 34.744 | 11.487 | 897 | 2789 | 170.000 |
| Local | EUA | EUA | India | África do Sul e Vietnam | EUA |
| Tipo de provedor de serviços de saúde | Não especificado | Médicos e enfermeiras recém-formados, parteiras e assistentes clínicos certificados | Médicos e enfermeiros recém-formados | Médicos, parteiras e assistentes clínicos experientes | Médicos experientes |
| Período de tempo | 2009-2010 | 2007-2011 | 2009-2010 | 2003-2004 | 1971-1987 |
| Total de taxa de complicações menores | 1,1% | 1,3% | 1% (todos casos reportados como aborto incompleto) | 1% | 0,85% |
| Aborto incompleto | 0,33% | 0,3% | 1% | 0,9% | Não reportado (0.35 taxa de repetição da aspiração) |
| Continuação da gravidez | 0,04% | 0,16% | Não reportado | Não reportado | 0% |
| Pequena infecção | 0,27% | 0,12% | Não reportado | 0,1% | 0,5% |
| Total da taxa de complicações importantes | 0,16% | 0,05% (6 complicações: 2 perfurações, 3 infecções e 1 hemorragia) |
0,12% (1 complicação: 1 febre alta) |
0% | 0,07% (hospitalizações por causa de perfuração, gravidez ectópica, hemorragia, septicemia ou aborto incompleto) |
| Mortes | 0% | 0% | 0% | 0% | 0% |
Quem pode realizar a aspiração intra-uterina?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) faz recomendações para a prestação de serviços de aspiração intra-uterina, que incluem a avaliação da idade gestacional, a preparação do colo do útero, se necessário, o procedimento em si, o controlo da dor, incluindo a realização de um bloqueio paracervical, e a avaliação da conclusão do procedimento através do exame visual dos produtos da concepção (OMS, 2024). Os profissionais de saúde com competências para realizar procedimentos transcervicais e exames bimanuais para diagnosticar a gravidez e determinar a idade gestacional com base no tamanho uterino podem ser formados para realizar a aspiração intra-uterina. A OMS aconselha que a aspiração intra-uterina esteja dentro do âmbito da prática dos médicos de especialidade e de clínica geral e recomenda que a aspiração intra-uterina seja realizada por médicos associados e associados avançados, parteiras e enfermeiras com base em evidências de segurança e eficácia de certeza moderada. Recomenda-se que os profissionais de medicina tradicional e complementar realizem a aspiração intra-uterina com base em evidências de segurança e eficácia de baixo grau de certeza, e a OMS sugere que as enfermeiras auxiliares e as parteiras auxiliares podem realizar a aspiração em ambientes onde prestam cuidados obstétricos básicos de emergência (OMS, 2024). Para mais informações sobre os papéis dos profissionais de saúde nos cuidados de aborto, ver Anexo C: Recomendações da Organização Mundial da Saúde para os papéis dos profissionais de saúde nos cuidados de aborto.
Referências
Benson, L. S., Micks, E. A., Ingalls, C., & Prager, S. W. (2016). Safety of outpatient surgical abortion for obese patients in the first and second trimesters. Obstetrics & Gynecology, 128(5), 1065-1070.
Cates Jr, W., Schulz, K. F., & Grimes, D. A. (1983). The risks associated with teenage abortion. New England Journal of Medicine, 309(11), 621-624.
Creanga, A., Syverson, C., Seed, K., & Callaghan, W. (2017). Pregnancy-related mortality in the United States, 2011-2013. Obstetrics & Gynecology, 130, 366-373.
Guiahi, M., Schiller, G., Sheeder, J., & Teal, S. (2015). Safety of first-trimester uterine evacuation in the outpatient setting for women with common chronic conditions. Contraception, 92(5), 453-457.
Hakim-Elahi, E., Tovell, H., & Burnhill, M. (1990). Complications of first-trimester abortion: A report of 170,000 cases. Obstetrics & Gynecology, 76(1), 129-135.
Jejeebhoy, S. J., Kalyanwala, S., Zavier, A., Kumar, R., Mundle, S., Tank, J., & Jha, N. (2011). Can nurses perform manual vacuum aspiration (MVA) as safely and effectively as physicians? Evidence from India. Contraception, 84(6), 615-621.
Kortsmit, K., Mandel, M.G., Reeves, J.A., Clark, E., Pagano, H.P., Nguyen, A., Petersen, E.E., & Whiteman, M.K. (2021). Abortion surveillance-United States, 2019. Morbidity and Mortality Weekly Report Surveillance Summaries, 70(9), 1-29.
Liu, N., & Ray, J. G. (2023). Short-Term Adverse Outcomes After Mifepristone–Misoprostol Versus Procedural Induced Abortion. Annals of Internal Medicine, 176(2), 145–153.
Mark, K. S., Bragg, B., Talaie, T., Chawla, K., Murphy, L., & Terplan, M. (2017). Risk of complication during surgical abortion in obese women. American Journal of Obstetrics & Gynecology, DOI: 10.1016/j.ajog.2017.10.018. Epub ahead of print.
Petersen, E.E., Davis, N.L., Goodman, D., Cox, S., Syverson, C., Seed, K., Shapiro-Mendoza, C., Callaghan, W.M., & Barfield, W. (2019). Racial/ethnic disparities in pregnancy-related deaths-United States, 2007-2016. Morbidity and Mortality Weekly Report Surveillance Summaries, 68(35), 762-765.
Raymond, E. G & Grimes, D. A. (2012). The comparative safety of legal induced abortion and childbirth in the United States. Obstetrics & Gynecology, 119, 215-219.
Upadhyay, U. D., Desai, S., Zlidar, V., Weitz, T. A., Grossman, D., Anderson, P., & Taylor, D. (2015). Incidence of emergency department visits and complications after abortion. Obstetrics & Gynecology, 125(1), 175-83.
Warriner, I. K., Meirik, O., Hoffman, M., Morroni, C., Harries, J., My Huong, N., & Seuc, A. H. (2006). Rates of complication in first-trimester manual vacuum aspiration abortion done by doctors and midlevel providers in South Africa and Vietnam: A randomised controlled equivalence trial. The Lancet, 368(9551), 1965-1972.
Weitz, T. A., Taylor, D., Desai, S., Upadhyay, U. D., Waldman, J., Battistelli, M. F., & Drey, E. A. (2013). Safety of aspiration abortion performed by nurse practitioners, certified nurse midwives, and physician assistants under a California legal waiver. American Journal of Public Health, 103(3), 454-461.
White, K., Carroll, E., & Grossman, D. (2015). Complications from first-trimester aspiration abortion: A systematic review of the literature. Contraception, 92, 422-438.
World Health Organization. (2024). Abortion care guideline, 2nd ed. Geneva: World Health Organization.
