Actualizações Clínicas em Saúde Reprodutiva

Antibióticos profilácticos para a aspiração intra-uterina e dilatação e evacuação

Última revisão: 30/09/2025

Recomendação:

  • Administrar antibióticos profilácticos antes da aspiração intra-uterina e dilatação e evacuação (D&E).
  • Podem ainda oferecer-se procedimentos de aspiração intra-uterina em locais onde os antibióticos não estejam disponíveis.
  • Administrar doses de tratamento com antibiótico às pessoas que apresentem sinais ou sintomas de infecções de transmissão sexual; os parceiros de pessoas com infecções de transmissão sexual também necessitam de tratamento. O tratamento não deve adiar o esvaziamento intra-uterino.

Na prática:

  • Uma dose única de doxiciclina (um antibiótico de tetraciclina) ou de metronidazol (um antibiótico de nitroimidazol) é normalmente usada quando é necessária profilaxia antibiótica, devido à sua eficácia, facilidade de administração oral, baixo custo e baixo risco de reação alérgica

Força da recomendação: Forte

Qualidade da evidência:

  • Aspiração intra-uterina: Alta
  • D&E: Muito Baixa
  • Aborto incompleto ou retido: Moderada

Risco de infecção

Quando se usam medidas objectivas para diagnosticar a infecção pós-aborto depois da realização de aspiração intra-uterina antes da 13.ª semana de gestação, a taxa de infecção varia de 0,01% a 2,44% (Achilles & Reeves, 2011). Em estudos realizados nos Estados Unidos antes do uso rotineiro da profilaxia antibiótica, as taxas de infecção reportadas após D&E variaram de 0,8% a 1,6% (Achilles & Reeves, 2011).

Evidência para profilaxia antibiótica

Uma meta-análise da Cochrane de 19 ensaios clínicos aleatorizados controlados mostrou que a administração de antibióticos profilácticos no momento da aspiração intra-uterina para o aborto induzido antes da 13.ª semana de gestação reduz significativamente o risco de infecção (Low et al., 2012). A evidência para apoiar o uso de antibióticos profilácticos antes da D&E é limitada; no entanto, devido ao benefício demonstrado dos antibióticos profilácticos antes da aspiração intra-uterina, a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2024), a Sociedade de Planeamento Familiar (Cheng et al., 2025), o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG, 2018; reafirmado em 2022) e o Colégio Real de Obstetras e Ginecologistas (RCOG, 2022) recomendam antibióticos profilácticos para todas as mulheres submetidas à aspiração intra-uterina ou D&E.

Uma meta-análise da Cochrane de seis ensaios clínicos aleatorizados controlados mostrou que a administração de antibióticos profiláticos antes do esvaziamento intra-uterino para o aborto incompleto ou retido (cuidados pós-aborto) até às 22 semanas de gestação reduziu significativamente o risco de infecção uterina quando a análise se limitou a estudos de alta qualidade (Ahmed et al., 2025). O maior dos estudos incluídos, um ensaio aleatorizado multinacional que analisou os antibióticos profiláticos actualmente recomendados, administrados como parte dos cuidados pós-aborto até às 22 semanas, constatou que menos mulheres no grupo de antibióticos profilácticos desenvolveram infecção pós-aborto do que aquelas no grupo do placebo, quando critérios estritos de diagnóstico internacional para infecção pélvica foram usados (Lissauer et al., 2019; Serwadda, 2019). Uma análise secundária deste estudo descobriu que a profilaxia com antibióticos é económica, estimando que a profilaxia de rotina poderia economizar US$ 8.5 milhões em duas regiões: África Subsaariana e Sul da Ásia (Goranitis et al., 2019).

Dar antibióticos profilácticos é mais eficaz e menos dispendiosa do que examinar todas as pessoas que apresentam para cuidados de aborto e tratar apenas aquelas que apresentam evidência de infecção (Levallois & Rioux, 1988; Low et al., 2012). Dado que o risco global de infecção com procedimentos de aborto é muito baixo, a incapacidade de oferecer antibióticos não deve limitar o acesso ao aborto (OMS, 2024).

Regime

Vários regimes de antibióticos são eficazes na profilaxia antes do aborto (Cheng et al., 2025; Low et al., 2012). Geralmente utilizam-se tetraciclinas (doxiciclina) e nitroimidazóis (metronidazol e tinidazol) por causa da sua eficácia, facilidade de administração oral, baixo custo e baixo risco de reacções alérgicas; as penicilinas também se revelaram eficazes, mas apresentam um maior risco de alergia (Achilles & Reeves, 2011; O’Connell et al., 2008; OMS, 2024). Embora os estudos sobre o aborto sejam limitados (Caruso et al., 2008), a evidência da literatura obstétrica (Costantine et al., 2008), ginecológica (Mittendorf et al., 1993) e cirurgia geral (Classen et al., 1992) apoiam a prática de administração de antibióticos antes do procedimento para reduzir o risco de infecções. Os regimes de antibióticos não precisam ser continuados após o procedimento de aborto (Cheng et al., 2025; Caruso, et al., 2008; Levallois & Rioux, 1988; Lichtenberg & Shott, 2003).

A tabela a seguir ilustra os regimes recomendados por organizações profissionais com base na evidência clínica e opiniões de especialistas.

Regimes comuns Recomendado por
200 mg de doxiciclina, por via oral antes do procedimento
ou
500 mg de azitromicina, por via oral, antes do procedimento
ou
500 mg de metronidazol, por via oral, antes do procedimento
Society of Family Planning (Cheng et al., 2025)
200 mg de doxiciclina por via oral dentro de 1 hora antes do procedimento American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG, 2018; reafirmado em 2022)

 

Antibióticos com dilatadores osmóticos

Apesar de não ter sido devidamente estudado, a preparação cervical com dilatadores osmóticos não parece aumentar o risco de infecção (Fox & Krajewski, 2014; Jonasson et al., 1989). Alguns provedores de saúde iniciam antibióticos no momento da colocação do dilatador osmótico, não obstante a inexistência de estudos que avaliem o benefício desta prática (White et al., 2018). A profilaxia antibiótica com colocação de um dilatador não deve substituir a profilaxia antibiótica administrada no momento do procedimento de esvaziamento intra-uterino (Cheng et al., 2025).

Antibióticos terapêuticos

As pessoas com elevado risco devem ser examinadas quanto à presença de infecções de transmissão sexual, para além de receberem antibióticos profilácticos. As pessoas que apresentam sinais e sintomas de infecções de transmissão sexual devem receber serviços de aborto sem demora e com o tratamento antibiótico adequado, de acordo com regimes baseados na evidência (Cheng et al., 2025; OMS, 2024; OMS, 2021). Os parceiros das pessoas com infecções de transmissão sexual também necessitam de tratamento (OMS, 2025; OMS, 2021).

Recursos

Recomendações para o uso de antibióticos profilácticos nos cuidados de aborto seguro (cartão)

Referências

Achilles, S. L., & Reeves, M. F. (2011). Society of Family Planning Clinical Guideline 20102: Prevention of infection after induced abortion. Contraception, 83(4), 295-309.

Ahmed, S. I., Ammerdorffer, A., Moakes, C. A., Cheshire, J., Gülmezoglu, A. M., Coomarasamy, A., Lissauer, D., & Wilson, A. (2025). Prophylactic antibiotics for uterine evacuation procedures to manage miscarriage. The Cochrane Database of Systematic Reviews, 4(4), CD014844.

American College of Obstetrics and Gynecology. (2018, reaffirmed 2022). Practice Bulletin No. 195: Prevention of infection after gynecologic procedures. Obstetrics & Gynecology, 131(6), e172-e189.

Caruso, S., Di Mari, L., Cacciatore, A., Mammana, G., Agnello, C., & Cianci, A. (2008). [Antibiotic prophylaxis with prulifloxacin in women undergoing induced abortion: A randomized controlled trial]. Minerva Ginecologica, 60(1), 1-5.

Cheng, T., Kumar, N., Laursen, L., Achilles, S. L., & Reeves, M. F. (2025). Society of Family Planning Clinical Recommendation: Prevention of infection after abortion and pregnancy loss. Contraception, 148.

Classen, D. C., Evans, R. S., Pestotnik, S. L., Horn, S. D., Menlove, R. L., & Burke, J. P. (1992). The timing of prophylactic administration of antibiotics and the risk of surgical-wound infection. The New England Journal of Medicine, 326(5), 281-286.

Costantine, M. M., Rahman, M., Ghulmiyah, L., Byers, B. D., Longo, M., Wen, T., & Saade, G. R. (2008). Timing of perioperative antibiotics for cesarean delivery: A metanalysis. American Journal of Obstetrics & Gynecology, 199(3), 301-306.

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Goranitis, I., Lissauer, D. M., Coomarasamy, A., Wilson, A., Daniels, J., Middleton, L., … & Roberts, T. E. (2019). Antibiotic prophylaxis in the surgical management of miscarriage in low-income countries: a cost-effectiveness analysis of the AIMS trial. The Lancet Global Health, 7(9), e1280-e1286.

Jonasson, A., Larsson, B., Bygdeman, S., & Forsum, U. (1989). The influence of cervical dilatation by laminaria tent and with Hegar dilators on the intrauterine microflora and the rate of postabortal pelvic inflammatory disease. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, 68(5), 405-410.

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Lissauer, D., Wilson, A., Hewitt, C.A., Middleton, L., Bishop, J.R.B., Daniels, J., … Coomarasamy, A. (2019). A randomized trial of prophylactic antibiotics for miscarriage surgery. The New England Journal of Medicine, 380(11), 1012-1021.

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Serwadda, D. M. (2019). To give or not to give prophylactic antibiotics for miscarriage surgery? The New England Journal of Medicine, 380(11), 1075-1076.

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World Health Organization. (2024). Abortion Care Guideline, 2nd ed. Geneva: World Health Organization.

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World Health Organization. (2021). Guidelines for the management of symptomatic sexually transmitted infections. Geneva: World Health Organization.