Actualizações Clínicas em Saúde Reprodutiva

Adolescentes: segurança e eficácia

Última revisão: 06/10/2025

Recomendação:

  • A aspiração intra-uterina e o aborto medicamentoso são seguros e eficazes para adolescentes e devem ser oferecidos como métodos para o aborto induzido.
  • A preparação cervical antes da aspiração intra-uterina deve ser uma hipótese a considerar para adolescentes.
  • As adolescentes devem ter acesso a serviços de aborto seguro sem demora.

Força da recomendação: Forte

Qualidade da evidência: Moderada

As adolescentes e o aborto

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define adolescentes como pessoas de 10 a 19 anos de idade e jovens como pessoas de 20 a 24 anos de idade. As adolescentes enfrentam barreiras de acesso aos serviços de aborto seguro e apresentam-se numa situação de aborto em idades gestacionais superiores às das pessoas adultas (Jatlaoui et al., 2017; Sowmini, 2013). As adolescentes têm maior risco de complicações de aborto inseguro devido a demora na procura de assistência, procura de serviços em provedores não qualificados e a falta de acesso aos serviços quando surgem complicações (Espinoza, Samandari, & Andersen, 2020; Fatusi et al., 2021; Keogh et al., 2021; Olukoya et al., 2001). O Instituto Guttmacher estima que, em 2019, 5,7 milhões de adolescentes com idades compreendidas entre os 15 e os 19 anos que vivem em países de baixo e médio rendimento sofreram gravidezes que terminaram em aborto, a maioria das quais não eram seguras (Sully et al., 2020). Aumentar o acesso ao aborto seguro pode beneficiar particularmente pessoas adolescentes e jovens.

Quando as adolescentes recebem serviços de aborto seguro, sofrem menos complicações do que as pessoas mais adultas. Num grande estudo de coortes retrospectivo baseado nos Estados Unidos que captou todas as complicações dentro de seis semanas de um total de 54.911 abortos cirúrgicos e medicamentosos, as adolescentes apresentaram a menor taxa de complicações relacionadas com o aborto – 1,5% – de todas as faixas etárias (Upadhyay et al., 2015). Os resultados não foram estratificados pelo método de esvaziamento intra-uterino, por trimestre ou por tipo de complicação.

Aspiração intra-uterina

Eficácia

As taxas de sucesso para aspiração intra-uterina não foram separadas por idade. Em estudos que relatam dados para adolescentes e mulheres de idade superior conjuntamente, as taxas de aborto incompleto e falha de aborto foram inferiores a 1% (Upadhyay et al., 2015; Warriner et al., 2006; Weitz et al., 2013). Uma revisão sistemática de 2014, que incluiu 25 ensaios aleatorizados e observacionais documentando os serviços de aborto para adolescentes e jovens, concluiu que o aborto, incluindo a aspiração intra-uterina, é seguro e eficaz, embora não tenham sido reportadas taxas de eficácia específicas (Renner, de Guzman, & Brahmi, 2014).

Segurança

Um grande estudo de coortes, prospectivo e multicêntrico, nos Estados Unidos, que incluiu 164.000 mulheres submetidas a aborto legal, das quais 50.000 eram adolescentes, constatou que as taxas de mortalidade e morbidade eram menores nas adolescentes em comparação com as mulheres de idade superior (Cates Jr., Schulz e Grimes, 1983). A taxa de mortalidade foi de 1,3 por cada 100.000 em mulheres com idade inferior a 20 anos comparativamente a 2,2 por cada 100.000 em mulheres com idade igual ou superior a 20 anos. Eventos adversos graves, incluindo grande cirurgia, hemorragia necessitando de transfusão e perfuração uterina foram menos comuns em mulheres com idade inferior a 20 anos. No entanto, a idade de 17 anos ou menos foi associada a taxas mais elevadas de lesão cervical, mesmo após o controlo de nuliparidade (5,5 por cada 1.000 em comparação com 1,7 por cada 1.000 em mulheres com idade igual ou superior a 30 anos, risco relativo de 1,9, IC 95% 1,2, 2,9) (Cates et al., 1983; Renner et al., 2014; Schulz, Grimes e Cates, 1983;). Para reduzir este risco, pode considerar-se a preparação cervical antes da aspiração intra-uterina para adolescentes (Allen & Goldberg, 2016; WHO, 2024).

Aceitabilidade

Há falta de dados estratificados por idade sobre a aceitabilidade da aspiração intra-uterina nas adolescentes (Renner et al., 2014).

Aborto medicamentoso

Eficácia

Ensaios clínicos e estudos de coortes mostraram que as mulheres jovens têm taxas de sucesso iguais (Haimov-Kochman et al., 2007; Heikinheimo, Leminen e Suhonen, 2007) ou superiores (Niinimäki et al., 2011; Shannon et al, 2006) ao usar mifepristona e misoprostol para aborto medicamentoso em comparação com mulheres de idade superior. Um grande estudo de coortes, retrospectivo com cidadãs finlandesas, que comparou 3024 adolescentes e 24.006 mulheres adultas até à 20.ª semana gestacional, constatou que o risco de esvaziamento cirúrgico após o aborto medicamentoso foi significativamente inferior nas adolescentes (Niinimäki et al., 2011).

Num estudo de coorte prospectivo que incluiu mulheres jovens, a taxa de sucesso de aborto medicamentoso com misoprostol isolado foi igual para mulheres jovens e mulheres de idade superior (Bugalho et al., 1996). Dois estudos de coortes prospectivos de aborto com misoprostol isolado incluíram somente adolescentes; a eficácia em ambos os estudos foi equivalente à reportada em ensaios envolvendo somente mulheres adultas (Carbonell et al., 2001; Visser et al., 2000) (Carbonell et al., 2001; Velazco et al., 2000).

Segurança

O estudo de coortes retrospectivo com cidadãs finlandesas, acima referido, constatou que as taxas de complicações após o aborto medicamentoso nas adolescentes eram semelhantes ou inferiores às das mulheres adultas, mesmo controlando a nuliparidade. Neste estudo, as adolescentes tiveram uma incidência significativamente inferior de hemorragia, aborto incompleto e necessidade de esvaziamento intra-uterino cirúrgico. A infecção pós-aborto teve taxas similares nas adolescentes e mulheres de idade superior, apesar das taxas mais elevadas de infecção por clamídia das adolescentes na população (Niinimäki, et al., 2011). Em estudos de aborto medicamentoso com uso de misoprostol isolado que incluem adolescentes, constatou-se que estas não apresentam taxas mais elevadas de resultados adversos do que as mulheres adultas (Carbonell et al., 2001; Velazco et al., 2000).

Aceitabilidade

Um estudo finlandês comparou a experiência de dor de 56 adolescentes submetidas a aborto medicamentoso com a de 76 mulheres adultas, concluindo que a dor sentida em ambos os grupos era semelhante e que mais de metade de todas as participantes sentiram dor intensa (Kemppainen et al., 2020). Apesar disso, a satisfação com os cuidados foi elevada tanto no grupo das adolescentes como no das adultas, com 90% das participantes a afirmar que voltariam a optar pelo aborto medicamentoso. Num pequeno estudo não comparativo de 28 adolescentes, com idades compreendidas entre 14 a 17 anos, usando mifepristona e misoprostol para aborto medicamentoso, constatou-se que 96% das adolescentes consideraram o aborto medicamentoso como aceitável e 79% disseram estar satisfeitas com o procedimento às quatro semanas de acompanhamento (Phelps, Schaff, & Fielding, 2001).

 

Resultados perinatais subsequentes

Três estudos examinaram resultados perinatais em gravidezes de adolescentes e mulheres jovens que tiveram uma experiência anterior de aborto—um estudo de coortes retrospectivo nos Estados Unidos, que comparou 654 partos de adolescentes nulíparas com 102 partos de adolescentes que fizeram um aborto anteriormente (van Veen, Haeri, & Baker, 2015), um estudo de coortes retrospectivo realizado na Alemanha, incluindo 7.845 partos de adolescentes nulíparas e 211 partos de adolescentes que tiveram um aborto induzido antes (Reime, Schucking, & Wenzlaff, 2008) e um estudo de caso-controlo realizado em Hong Kong comparando 118 partos de adolescentes que tiveram um ou mais abortos anteriormente com 118 controlos para a idade e paridade (Lao & Ho, 1998). Nos estudos dos Estados Unidos e de Hong Kong não se constatou nenhuma diferença nos resultados perinatais adversos entre os grupos em estudo. Após o ajuste para factores de confusão, no estudo realizado na Alemanha constatou-se um risco aumentado de recém-nascidos de muito baixo peso nas adolescentes que tiveram uma experiência anterior de aborto. Em nenhum destes estudos se especificou o método de aborto nem se a preparação cervical pré-operatória havia sido realizada ou não.

Referências

Allen, R., & Goldberg, A. (2016). Society of Family Planning Clinical Guideline 20071: Cervical dilation before first trimester surgical abortion (< 14 weeks gestation). Contraception, 93(4), 277-291.

Bugalho, A., Faundes, A., Jamisse, L., Usfa, M., Maria, E., & Bique, C. (1996). Evaluation of the effectiveness of vaginal misoprostol to induce first trimester abortion. Contraception, 53(4), 243-246.

Cates Jr, W., Schulz, K. F., & Grimes, D. A. (1983). The risks associated with teenage abortion. New England Journal of Medicine, 309(11), 621-624.

Carbonell, J. L., Velazco, A., Varela, L., Tanda, R., Sanchez, C., Barambio, S., & Mari, J. (2001). Misoprostol for abortion at 9-12 weeks’ gestation in adolescents. The European Journal of Contraception and Reproductive Health Care, 6(1), 39-45.

Espinoza, C., Samandari, G., & Andersen, K. (2020). Abortion knowledge, attitudes and experiences among adolescent girls: A review of the literature. Sexual and Reproductive Health Matters, 28(1), 175-195.

Fatusi, A., Riley, T., Kayembe, P.K., & Mabika, C. (2021). Unintended pregnancy, induced abortion and abortion care-seeking experiences among adolescents in Kinshasa, Democratic Republic of Congo: A cross-sectional review. BMJ Open, 11(9), e044682.

Haimov-Kochman, R., Arbel, R., Sciaky-Tamir, Y., Brzezinski, A., Laufer, N., & Yagel, S. (2007). Risk factors for unsuccessful medical abortion with mifepristone and misoprostol. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, 86(4), 462-466.

Heikinheimo, O., Leminen, R., & Suhonen, S. (2007). Termination of early pregnancy using flexible, low-dose mifepristone–misoprostol regimens. Contraception, 76(6), 456-460.

Jatloui, T. C., Shah, J., Mandel, M. G., Krashin, J. W., Suchdev, D. B., Jamieson, D. J., & Pazol, K. (2017). Abortion surveillance-United States, 2014. MMWR Surveillance Summaries, 66(24), 1-48.

Kemppainen, V., Mentula, M., Palkama, V., & Heikinheimo, O. (2020). Pain during medical abortion in early pregnancy in teenage and adult women. Acta Obstetricia et Gyncologica Scandinavica, 99(12), 1603-1610.

Keogh, S.C., Otupiri, E., Castillo, P.W., Li, N.W., Apenkwa, J., & Polis, C.B. (2021). Contraceptive and abortion practices of young Ghanian women aged 15-24: Evidence from a nationally representative sample. Reproductive Health, 18(1), 150.

Lao, T. T., & Ho, L. F. (1998). Induced abortion is not a cause of subsequent preterm delivery in teenage pregnancies. Human Reproduction, 13(3), 758-761.

Niinimäki, M., Suhonen, S., Mentula, M., Hemminki, E., Heikinheimo, O., & Gissler, M. (2011). Comparison of rates of adverse events in adolescent and adult women undergoing medical abortion: A population register based study. BMJ: British Medical Journal, 342, d2111.

Olukoya, A., Kaya, A., Ferguson, B., & AbouZahr, C. (2001). Unsafe abortion in adolescents. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 75(2), 137-147.

Phelps, R. H., Schaff, E. A., & Fielding, S. L. (2001). Mifepristone abortion in minors. Contraception, 64(6), 339-343.

Reime, B., Schucking, B. A., & Wenzlaff, P. (2008). Reproductive outcomes in adolescents who had a previous birth or an induced abortion compared to adolescents’ first pregnancies. BioMed Central Pregnancy and Childbirth, 8(4).

Renner, R. M., de Guzman, A., & Brahmi, D. (2014). Abortion care for adolescent and young women. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 126, 1-7.

Schulz, K., Grimes, D., & Cates, W. (1983). Measures to prevent cervical injury during suction curettage abortion. The Lancet, 321(8335), 1182-1185.

Shannon, C., Wiebe, E., Jacot, F., Guilbert, E., Dunn, S., Sheldon, W., & Winikoff, B. (2006). Regimens of misoprostol with mifepristone for early medical abortion: A andomized trial. BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology, 113(6), 621-628.

Sowmini, S.V. (2013). Delay in termination of pregnancy among unmarried adolescents and young women attending a tertiary hospital abortion clinic in Trivandrum, Kerala, India. Reproductive Health Matters, 21(41), 243-250.

Sully, E.A., Biddlecom, A., Darroch, J.E., Riley, T., Ashford, L.S., Lince-Deroche, N., Firestein, L., & Murro, R. (2020). Adding it up: Investing in Sexual and Reproductive Health 2019. New York: Guttmacher Institute.

Upadhyay, U. D., Desai, S., Zlidar, V., Weitz, T. A., Grossman, D., Anderson, P., & Taylor, D. (2015). Incidence of emergency department visits and complications after abortion. Obstetrics & Gynecology, 125(1), 175-83.

Van Veen, T. R., Haeri, S., & Baker, A. M. (2015). Teen pregnancy: Are pregnancies following an elective termination associated with increased risk for adverse perinatal outcomes? Journal of Pediatric and Adolescent Gynecology, 28, 530-532.

Velazco, A., Varela, L., Tanda, R., Sanchez, C., Barambio, S., Chami, S., … Carbonell, J. L. L. (2000). Misoprostol for abortion up to 9 weeks’ gestation in adolescents. The European Journal of Contraception and Reproductive Health Care, 5, 227-233.

Warriner, I. K., Meirik, O., Hoffman, M., Morroni, C., Harries, J., My Huong, N., & Seuc, A. H. (2006). Rates of complication in first-trimester manual vacuum aspiration abortion done by doctors and midlevel providers in South Africa and Vietnam: A andomized controlled equivalence trial. The Lancet, 368(9551), 1965-1972.

Weitz, T. A., Taylor, D., Desai, S., Upadhyay, U. D., Waldman, J., Battistelli, M. F., & Drey, E. A. (2013). Safety of aspiration abortion performed by nurse practitioners, certified nurse midwives, and physician assistants under a California legal waiver. American Journal of Public Health, 103(3), 454-461.

World Health Organization. (2024). Abortion care guideline, 2nd ed. Geneva: World Health Organization.