Informações essenciais:
- Dilatação e evacuação (D&E) e aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol ou com misoprostol isolado são métodos de aborto seguros e eficazes.
- O aborto medicamentoso tem uma maior taxa de retenção de produtos da concepção, falha de aborto e eventos adversos menores.
- A D&E exige um provedor de cuidados de aborto qualificado, experiente e equipamento especializado.
Na prática:
- Deve ser oferecida às pessoas uma escolha de métodos quando tanto a D&E como o aborto medicamentoso estiverem disponíveis.
Qualidade da evidência: Moderada
Comparação de métodos
Segurança
No maior ensaio aleatorizado comparando métodos de aborto durante ou após a 13.ª semana de gestação, 58 mulheres com gestações entre 13-20 semanas receberam D&E e 52 receberam aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol (Kelly et al., 2010). As taxas globais de complicações foram iguais nos dois grupos (12%), contudo, os tipos de complicações foram diferentes. Cinco participantes que receberam aborto medicamentoso precisaram de esvaziamento intra-uterino por retenção de produtos da concepção e uma sofreu uma hemorragia que necessitou de transfusão; apenas uma pessoa no grupo que teve intervenção cirúrgica necessitou de repetição do esvaziamento uterino, uma sofreu uma laceração cervical; e outras cinco apresentaram hemorragia que necessitou de transfusão. Uma proporção estatisticamente significativa de pessoas aleatorizadas para o aborto medicamentoso teve mais sangramento e dor e considerou o processo de aborto menos aceitável do que as que fizeram D&E. Um ensaio piloto aleatorizado de 18 mulheres com gestações entre a 14-19 semanas, que comparou a D&E com o aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol, constatou uma taxa superior de eventos adversos, especificamente retenção de placenta e febre, em mulheres submetidas ao aborto medicamentoso, porém, nenhum caso foi grave (Grimes, Smith, & Witham, 2004). Um estudo prospectivo, não aleatorizado, no qual as pessoas que procuravam fazer aborto entre a 13.ª e a 20.ª semana escolheram o seu método de esvaziamento intra-uterino, incluiu 219 participantes de aborto medicamentoso e 60 participantes de D&E e não revelou qualquer diferença nas taxas de complicações entre os dois grupos (Tufa et al., 2021).
O maior estudo de coortes retrospectivo disponível foi realizado no Nepal e incluiu 2.294 mulheres durante ou após a 13.ª semana de gestação; 595 foram submetidas a D&E e 1.701 tiveram um aborto medicamentoso (Kapp et al., 2020). As complicações foram, em geral, raras (<1% para D&E, 1,4% para aborto medicamentoso), consistindo na sua maioria em hemorragia, em ambos os grupos. Um estudo de coorte retrospectivo realizado nos EUA comparou 1 049 procedimentos de D&E com 212 abortos médicos entre a 16.ª e a 24.ª semana, tendo constatado uma taxa de complicações mais elevada no grupo do aborto medicamentoso (8 % contra 17 %) (Naseem et al., 2025). A laceração cervical foi a complicação mais comum durante a D&E, e a hemorragia foi a mais comum no aborto medicamentoso. Um pequeno estudo de coorte retrospectivo que comparou pessoas submetidas ao aborto medicamentoso (n=77) ou à D&E (n=41) para IUFD entre a 13.ª e a 24ª semana revelou taxas semelhantes de complicações em ambos os grupos (19% e 17%, respectivamente), embora 2 pacientes no grupo do aborto medicamentoso (3%) tenham sofrido uma complicação grave (McLaren et al., 2022).
Em estudos publicados sobre o aborto medicamentoso em comparação com D&E, as taxas de intervenção para o aborto medicamentoso podem ser artificialmente elevadas porque a falha foi definida como a inexistência de expulsão às 24 horas (Bryant et al., 2011) e a retenção de placenta foi diagnosticada passadas duas horas (Grimes et al., 2004). Na prática, pode conceder-se mais tempo para permitir que ocorra o aborto medicamentoso bem-sucedido.
Resultados perinatais subsequentes
Um estudo finlandês baseado em registos de mulheres que foram mães pela primeira vez comparou a incidência de resultados adversos entre as que não tinham antecedentes de aborto (364.392 mulheres), as que tinham antecedentes de aborto medicamentoso ou cirúrgico às 12 semanas de gestação ou menos (46.589 mulheres), e as que tinham antecedentes de aborto medicamentoso ou cirúrgico acima das 12 semanas (7.709 mulheres) (KC, Gissler e Klemetti, 2020). Os investigadores constataram que o risco de qualquer resultado adverso subsequente do nascimento era pequeno, mas que esse risco é maior com o aumento da idade gestacional no momento do aborto induzido. As mulheres submetidas a um aborto medicamentoso mais tardio apresentaram um risco 1,4 vezes maior de parto prematuro e baixo peso à nascença em comparação com as que fizeram um aborto medicamentoso mais cedo. As mulheres que fizeram um aborto cirúrgico mais tardio tiveram, respectivamente, um risco 2,6 vezes maior e 1,5 vezes maior de parto extremamente prematuro e de muito baixo peso à nascença em comparação com as mulheres que fizeram um aborto cirúrgico mais cedo.
A importância da escolha
As características do aborto medicamentoso e da D&E variam muito; em locais onde haja disponibilidade de ambos os métodos de aborto e uma pessoa for elegível para qualquer destes, deve ter a possibilidade de escolher o método de aborto. A escolha do procedimento de aborto é um procedimento intensamente pessoal (Kerns et al., 2018)— algumas preferem a velocidade e previsibilidade da D&E, enquanto outras preferem um processo mais “semelhante a um parto” com um feto intacto (Kelly et al., 2010; Kerns et al., 2012). A aceitabilidade e satisfação com o processo de aborto é maior quando cada pessoa pode escolher receber o seu método preferido (Kapp & Lohr, 2020). Ambos os ensaios aleatorizados referenciados acima (Kelly et al., 2010; Grimes et al., 2004) tiveram dificuldade de recrutamento devido às fortes preferências das pessoas por um método-geralmente D&E-em detrimento do outro. Nos estudos mais recentes, 100% das que foram aleatorizadas para D&E reportaram que o escolheriam novamente em comparação com apenas 53% das aleatorizadas para o aborto medicamentoso (Kelly et al., 2010). Para as pessoas poderem escolher o método de aborto que melhor facilite a forma de lidarem com o processo, precisam de ter informação apropriada sobre os dois métodos de aborto e de terem a capacidade de tomar decisões de forma autónoma (Kerns et al., 2018).
Referências
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Bryant, A. G., Grimes, D. A., Garrett, J. M., & Stuart, G. S. (2011). Second-trimester abortion for fetal anomalies or fetal death: Labor induction compared with dilation and evacuation. Obstetrics & Gynecology, 117(4), 788-792.
Grimes, D. A., Smith, M. S., & Witham, A. D. (2004). Mifepristone and misoprostol versus dilation and evacuation for midtrimester abortion: A pilot randomised controlled trial. BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology, 111(2), 148-153.
Kapp, N., Griffin, R., Bhattarai, N., & Dangol, D.S. (2020). Does prior ultrasonography affect the safety of induced abortion at or after 13 weeks’ gestation? A retrospective study. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, doi: 10.1111/aogs.14040. Epub ahead of print. PMID: 33185906.
Kapp, N. & Lohr, P.A. (2020). Modern methods to induce abortion: Safety, efficacy and choice. Best Practice and Research: Clinical Obstetrics and Gynaecology, 63, 37-44.
KC, S., Gissler, M., & Klemetti, R. (2020). The duration of gestation at previous induced abortion and its impacts on subsequent births: A nationwide registry based study. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, 99(5), 651-659.
Kelly, T., Suddes, J., Howel, D., Hewison, J., & Robson, S. (2010). Comparing medical versus surgical termination of pregnancy at 13-20 weeks of gestation: A randomised controlled trial. BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology, 117(12), 1512-1520.
Kerns, J. L., Light, A., Dalton, V., McNamara, B., Steinauer, J., & Kuppermann, M. (2018). Decision satisfaction among women choosing a method of pregnancy termination in the setting of fetal anomalies and other pregnancy complications: A qualitative study. Patient Education and Counseling, 101(10), 1859-1864.
Kerns, J., Vanjani, R., Freedman, L., Meckstroth, K., Drey, E. A., & Steinauer, J. (2012). Women’s decision making regarding choice of second trimester termination method for pregnancy complications. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 116(3), 244-248.
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Naseem, A., Valenzuela, A., Venuti, K., Kominiarek, M. A., Lancki, N., & Kiley, J. W. (2025). Medication abortion and procedural abortion in the second trimester: Comparison of complications at 16–23 6/7 Weeks’ gestation. European Journal of Obstetrics and Gynecology and Reproductive Biology, 314.
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Tufa, T.H., Prager, S., Wondafrash, M., Mohammed, S., Byl, N., & Bell, J., (2021). Comparison of surgical versus medical termiantion of pregnancy between 13-20 weeks of gestation in Ethiopia: A quasi-experimental study. PLoS One, 16(4), e0249529.
