Actualizações Clínicas em Saúde Reprodutiva

Auto-administração

Última revisão: 08/10/2025

Informações essenciais:

  • As pessoas podem auto-administrar o aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol, ou com misoprostol isolado, de forma segura e eficaz, quando dispõem de informação correcta, medicamentos de qualidade garantida e acesso a serviços de saúde, se necessário.

Qualidade da evidência: Alta

O que é auto-administração do aborto medicamentoso?

A auto-administração do aborto medicamentoso é o processo pelo qual uma pessoa adquire medicamentos para o aborto (mifepristona e misoprostol, ou misoprostol isolado) e realiza as partes componentes do seu próprio aborto com ou sem o apoio de um profissional de saúde (Organização Mundial da Saúde [OMS], 2022). Algumas pessoas preferem administrar todos os componentes do aborto medicamentoso fora do sistema de saúde, enquanto outras podem optar por interagir com profissionais de saúde formados através de mecanismos tradicionais ou inovadores de prestação de serviços, conforme necessário; é importante referir que é a pessoa que decide quais os aspectos dos cuidados que irá auto-administrar e quando e onde procurar apoio (OMS, 2024; OMS, 2022). As barreiras ao acesso clínico, como o custo ou a inacessibilidade dos serviços, são a razão mais frequentemente reportada para o aborto auto-administrado (Amo-Adjei et al., 2025; Aiken, Starling, & Gomperts, 2021). Ainda que o aborto auto-administração tenha o potencial de aumentar drasticamente o acesso ao aborto seguro, particularmente em contextos onde o acesso é limitado (Jayaweera et al., 2021), as pessoas escolhem a auto-administração do aborto por muitas razões. Estas razões incluem mais autonomia e controlo sobre a experiência, a possibilidade de maior conforto ou privacidade e a capacidade de evitar o estigma, a discriminação ou outras barreiras associadas à procura de cuidados numa unidade sanitária (Aiken et al., 2018; Harries et al., 2021; Moseson et al., 2020). O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) afirma que a criminalização — e não o aborto em si — é a principal fonte de danos potenciais associados à auto-administração do aborto (ACOG, 2024).

Existem vários modelos de auto-administração do aborto medicamentoso, dependendo do grau de envolvimento do sistema de saúde formal, dos profissionais de saúde ou de outros serviços de apoio no processo (Dragoman et al., 2022; Sorhaido & Sedgh, 2020). Uma revisão sistemática de 2025 combinou dados de 21 estudos (n=10 693) que examinaram vários modelos diferentes de auto-administração do aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol, tendo-se verificado uma taxa de eficácia global de 94% até aos 63 dias de gestação e de 95% até aos 70 dias (Ralph et al., 2025). O esvaziamento intra-uterino foi necessário em 4% das pacientes, as taxas de gravidez ectópica e de transfusão de sangue foram < 1% e não foram reportadas mortes.

Auto-administração do aborto medicamentoso

O aborto medicamentoso antes da 13.ª semana é um processo que ocorre durante um período de horas a dias, consistindo em três componentes: (1) determinação da elegibilidade para o aborto medicamentoso; (2) administração de medicamentos de aborto e gestão do processo de aborto; e (3) avaliação do sucesso do aborto. A abundância de evidências clínicas documenta a capacidade de pessoas grávidas de realizar cada um desses componentes com segurança e eficácia. Ver 3.2: Recomendações para o aborto antes da 13.ª semana: Cálculo da idade gestacional e 3.3: Recomendações para o aborto antes da 13.ª semana: Rastreio de gravidez ectópica para um resumo das evidências que apoiam a capacidade das pessoas para auto-avaliarem a sua elegibilidade para o aborto medicamentoso; ver 3.5.6: Recomendações para o aborto antes da 13.ª semana: Aborto medicamentoso: Uso domiciliário de medicamentos até a 12.ª semana para um resumo das evidências que apoiam a capacidade das pessoas para auto-administrarem medicamentos para o aborto e gerirem o processo de aborto; e ver 3.5.7: Recomendações para o aborto antes da 13.ª semana: Aborto medicamentoso: Confirmação do sucesso para um resumo das evidências que apoiam a capacidade das pessoas para auto-avaliarem o sucesso do seu aborto.

Modelos de auto-administração do aborto

Aborto por telemedicina

No aborto por telemedicina, um profissional de saúde geograficamente separado da pessoa que procura o aborto facilita um aborto medicamentoso. Os profissionais de saúde de telemedicina avaliam a elegibilidade para o aborto com base na história, fornecer medicamentos para as pessoas que procuram o aborto usarem em casa e oferecer acompanhamento – isto pode ocorrer dentro ou fora do sistema formal de saúde e pode ser síncrono ou assíncrono (Endler et al., 2019 ; Raymond et al., 2020). Uma revisão da Cochrane de 2025 avaliou a segurança e a eficácia da telemedicina para o aborto medicamentoso, incluindo seis estudos aleatorizados controlados e 16 estudos não aleatorizados, abrangendo 131 278 mulheres que realizaram um aborto medicamentoso até a 12ª semana de gestação (Cleeve et al., 2025). Esta revisão concluiu que o aborto medicamentoso realizado por telemedicina era tão seguro e eficaz quanto o realizado presencialmente. Muitos estudos comparativos de coorte, prospectivos, confirmam esta conclusão (Aiken et al., 2021; Anger & Raymond, 2024; Ralph et al., 2024; Upadhyay et al., 2024). O maior destes, um estudo de coorte prospectivo realizado no Reino Unido que comparou os resultados entre as pessoas que receberam um aborto medicamentoso tradicional presencial (n=22 158) e aquelas que receberam um aborto por telemedicina sem testes, exames ou ecografias pré-aborto até a 10.ª semana de gestação (n=18 435), constatou que mais de 98% das pessoas em ambos os grupos tiveram um aborto completo e que menos participantes no grupo de telemedicina (0,02%) sofreram um evento adverso grave do que no grupo de cuidados tradicionais (0,04%) (Aiken et al., 2021). A OMS recomenda a telemedicina como uma alternativa aos cuidados de aborto medicamentoso presenciais (OMS, 2024).

Modelos de acompanhamento

Nos modelos de acompanhamento, agentes comunitários não clínicos formados fornecem às pessoas que procuram o aborto informações sobre aborto medicamentoso baseadas em evidências, orientação para a obtenção de medicamentos para aborto e instruções passo a passo para a sua utilização, orientação para avaliar o sucesso do aborto e sinais de alerta de complicações e apoio durante o processo de aborto, quando necessário. Os grupos de acompanhamento trabalham normalmente fora do sistema formal de cuidados de saúde e podem actuar em locais onde o aborto é altamente restrito (Zurbriggen, Keefe-Oates, & Gerdts, 2018). Um estudo de coorte prospectivo sobre o acompanhamento de aborto incluiu 1 352 participantes com gestação até a 24ª semana de gestação na Nigéria, na Argentina e no Sudeste Asiático (Moseson et al., 2023; Moseson et al., 2021). Para as participantes com gestações até nove semanas, as taxas de sucesso do aborto auto-reportadas foram comparáveis às dos cuidados prestados em clínica: 98% tanto para o regime combinado de mifepristona e misoprostol como para o regime de misoprostol isolado (Jayaweera et al., 2023a; Jayaweera et al., 2023b; Moseson et al., 2021). As taxas de sucesso para as participantes com gestações entre 9 e 12 semanas (n=222) foram de 87% para o regime combinado e de 98% para o regime de misoprostol isolado (Jayaweera et al., 2023b; Moseson et al., 2021; Moseson et al., 2023). Um estudo de coorte retrospectivo de menor dimensão, realizado na Bolívia, incluiu 302 participantes que procuraram o aborto antes da 12ª semana de gestação (Acre et al., 2023). As participantes utilizaram tanto o regime combinado como o regime de misoprostol isolado; a taxa de sucesso foi de 99%, com apenas 6 pessoas a procurarem cuidados adicionais, na maioria dos casos para confirmar o sucesso do aborto.

Distribuição comunitária

Dois estudos documentaram a segurança e a eficácia do aborto auto-administrado com misoprostol isolado, acedido através de distribuição comunitária (Foster, Arnott, & Hobstetter, 2017; Foster et al., 2022). Nestes estudos, profissionais de saúde comunitários leigos ou voluntários forneceram misoprostol e instruções para o seu uso a pessoas que procuravam o aborto antes da 9.ª ou 10.ª semana de gestação, com base na data da última menstruação reportada. Em ambos os estudos, as taxas de sucesso do aborto excederam as observadas em estudos clínicos de aborto medicamentoso com misoprostol isolado (94-96%), sem registo de eventos adversos graves.

Aquisição em farmácias

Dois estudos comparativos de coorte demonstraram a eficácia do aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol adquiridos directamente em farmácias ou em pontos de venda de medicamentos, em comparação com uma clínica de saúde. No Camboja, um estudo que incluiu 1 847 mulheres com idade gestacional média < 7 semanas constatou que 9% das mulheres do grupo das farmácias necessitaram de tratamento adicional para completar o aborto, em comparação com 13% no grupo das clínicas de saúde (Kapp et al., 2023). Um estudo semelhante no Gana, que incluiu 1 958 mulheres, constatou que 3% das pacientes das farmácias e 5% das pacientes das clínicas de saúde necessitaram de tratamento adicional para completar os seus abortos (Kapp et al., 2024). Um estudo de coorte prospectivo realizado na Nigéria avaliou as taxas de sucesso em mulheres grávidas (n=394) que auto-administraram o seu aborto com misoprostol adquirido a vendedores de medicamentos (Stillman et al., 2020). Apesar de terem recebido informações inadequadas sobre os medicamentos, o que esperar, ou onde e quando procurar cuidados adicionais, 94% da amostra reportou um aborto completo sem intervenção cirúrgica; uma participante necessitou de uma transfusão de sangue. Um estudo transversal de base populacional realizado na Índia revelou que a taxa de complicações auto-reportadas era inferior entre as mulheres que tinham auto-administrado o aborto medicamentoso com medicamentos adquiridos em farmácias (13 %, n = 2229) do que entre aquelas que tinham recorrido a um aborto medicamentoso com acompanhamento de um profissional de saúde (15 %, n = 2860); o tipo de complicação não foi especificado (Banerjee, Gulati e Pearson, 2025). Um estudo de coorte comparativo no Bangladesh constatou que a qualidade dos cuidados de aborto recebidos em farmácias e em clínicas de saúde, conforme reportado pelas pacientes, era comparável (Jacobsen et al., 2024). As pacientes das farmácias eram mais propensas a referir que o aborto era acessível, enquanto as pacientes das clínicas de saúde recebiam informações de melhor qualidade e estavam mais preparadas em caso de um evento adverso.

Recursos

Abortion with pills – Ipas (Recursos baseados em evidências sobre como auto-administrar com segurança um aborto usando pílulas.)

Abortion Care Videos – Ipas: Abortion Care Videos for Women (3 vídeos)

Referências

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