Recomendação:
- A maioria das pessoas submetidas a um aborto medicamentoso com um regime de medicamentos recomendado terá um aborto bem-sucedido; o acompanhamento de rotina não é necessário.
- Os provedores de cuidados de aborto podem realizar uma avaliação clínica para auxiliar na confirmação de aborto bem-sucedido.
- A ecografia ou outros testes são apenas necessários nos casos em que o diagnóstico não é claro.
Na prática:
- As pessoas submetidas ao aborto medicamentoso devem receber informação adequada sobre quando procurar cuidados adicionais para uma possível complicação. Isto inclui:
- Hemorragia intensa ou absorção de mais de 2 pensos higiénicos por hora durante 2 horas seguidas;
- Febre ou doença semelhante à gripe que se desenvolve mais de 24 horas após o uso do misoprostol;
- Dor intensa ou agravamento da dor, incluindo dor que possa indicar uma gravidez ectópica não diagnosticada;
- Corrimento vaginal incomum ou com mau cheiro.
- As pessoas submetidas ao aborto medicamentoso devem receber informações adequadas sobre sinais e sintomas que podem indicar uma continuação da gravidez para a qual as pacientes devem procurar atendimento médico, incluindo:
- Não ter sangramento ou ter apenas manchas nas 24 horas após o uso do misoprostol;
- Continuar a sentir-se grávida 1 semana após o uso de medicamentos de aborto.
- Testes de gravidez na urina podem ainda ter um resultado positivo até 4 semanas após um aborto medicamentoso bem-sucedido.
Força da recomendação: Forte
Qualidade da evidência: Moderada
Aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol
A taxa de sucesso de uso de mifepristona seguida por misoprostol para o aborto medicamentoso até à 10.ª semana de gestação é superior a 95%, com taxas de continuação da gravidez inferiores a 2% (Chen & Creinin, 2015; Kulier et al., 2011; Raymond et al., 2012). A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que o acompanhamento rotineiro depois do aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol não é necessário (2024), aconselhando, em vez disso, que as pessoas devem ser adequadamente informadas sobre os sintomas de uma continuação da gravidez e outras razões médicas que justifiquem o regresso para acompanhamento, tais como hemorragia intensa prolongada, ausência de hemorragia com tratamento médico do aborto, dores não aliviadas por medicamentos ou febre. Várias estratégias foram analisadas para confirmar o sucesso do aborto medicamentoso e identificar rara continuação da gravidez quando se usa o regime de mifepristona e misoprostol.
Auto-avaliação baseada em sintomas
As evidências indicam que as pessoas podem determinar com precisão quando o aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol foi bem-sucedido—isto é, se a expulsão da gravidez ocorreu. Em estudos de comparação entre as auto-avaliações sobre a expulsão com base nos sintomas e as auto-avaliações realizadas por clínicos (Cameron et al., 2015; Clark et al., 2010; Perriera et al., 2010; Rossi, Creinin, & Meyn, 2004) e por ecografia (Rossi et al., 2004), a auto-avaliação provou repetidamente ser quase tão exacta como ambas.
Avaliação clínica
Os provedores de serviços de saúde podem ajudar a confirmar o sucesso do aborto com mifepristona e misoprostol numa consulta de acompanhamento, revendo o histórico da paciente e realizando um exame bimanual, se indicado. Em estudos que compararam a avaliação clínica com a da ecografia (Rossi et al., 2004; Pymar, Creinin, & Schwartz, 2001), os profissionais clínicos determinaram a expulsão da gravidez com elevados níveis de exactidão.
Ecografia
A ecografia pode ser usada para confirmar o aborto bem-sucedido, mas não é necessária e pode aumentar os custos e a complexidade do aborto medicamentoso, particularmente em locais onde os provedores de cuidados são inexperientes na leitura da ecografia pós-aborto medicamentoso (Kaneshiro et al., 2011). A ecografia é útil nos casos em que existam dúvidas relativas à continuação da gravidez.
Teste sérico de gravidez
O teste sérico de gravidez foi usado como uma alternativa à ecografia para diagnosticar a continuação da gravidez após mifepristona e misoprostol e compara-se favoravelmente à ecografia na redução de intervenções no momento do acompanhamento (Clark et al., 2007; Dayananda et al., 2013; Fiala et al., 2003). Teste sérico de gravidez é mais útil quando tiver sido obtida uma pré-colheita de hCG para efeitos de comparação; a hCG diminui em mais de 90%, sete dias após a administração da mifepristona no caso de um aborto medicamentoso bem-sucedido (Pocius et al., 2016). Um nível sérico de hCG abaixo de 900 UI 14-21 dias após o aborto medicamentoso precoce (<63 dias de gestação) exclui a continuação da gravidez (Le Lous et al., 2018). No aborto medicamentoso muito precoce (< 42 dias de gestação), uma diminuição de 80% dos níveis de hCG sete dias após a administração de mifepristona confirma o sucesso do aborto medicamentoso (Bharadwa et al., 2024; Jar-Allah et al., 2025)..
Teste urinário de gravidez
Um teste urinário de gravidez negativo é tranquilizador em como o aborto foi bem-sucedido. Contudo, embora raramente, acontecem casos em que um teste de gravidez é negativo mas a pessoa continua grávida (falso negativo). Tanto os testes urinários de gravidez de alta sensibilidade como os de baixa sensibilidade podem ter resultados positivos, mesmo quando o aborto medicamentoso foi bem-sucedido (falso positivo) devido aos níveis de hcg que permanecem elevados durante pelo menos 18 dias após um aborto medicamentoso (Cameron et al., 2012; Clark et al., 2010; Godfrey et al., 2007; Perriera et al., 2010; Raymond et al., 2021). Numa série de casos que incluiu 258 pessoas com abortos medicamentosos bem-sucedidos e que realizaram um teste de gravidez de alta sensibilidade quatro semanas depois de administrarem mifepristona, 19% tiveram um resultado falso positivo (Raymond et al., 2021). Vários estudos examinaram o uso de testes urinários de gravidez de baixa sensibilidade (Cameron et al., 2012, Cameron et al., 2015; Constant et al., 2017; Iyengar et al., 2015; Michie & Cameron, 2014) e semi-quantitativos ou multiníveis (Anger et al., 2019; Chong et al., 2020; Oppegaard et al., 2015; Raymond et al., 2017; Raymond et al., 2018b) muitas vezes em combinação com uma lista de verificação de sintomas, para confirmar o sucesso do aborto medicamentoso ou identificar a continuação da gravidez sem regressar para o acompanhamento. Um pequeno ensaio aleatorizou 88 participantes com gravidezes de menos de 63 dias para usarem independentemente um teste de gravidez de baixa sensibilidade ou um teste de gravidez multinível para determinar o sucesso do aborto medicamentoso, concluindo que as pessoas podiam usar de forma correcta e interpretar com precisão os resultados destes testes (Fok et al., 2021). Uma revisão sistemática de 2018 avaliou a exactidão do uso do teste de gravidez de baixa sensibilidade para identificar continuação de gravidez após o aborto medicamentoso (Raymond, Shocket, & Bracken, 2018a), tendo concluído que um teste de gravidez de baixa sensibilidade positivo ou inválido teve apenas sensibilidade moderada para detectar a continuação de gravidez. Um estudo subsequente sobre a precisão do diagnóstico concluiu que um teste de gravidez de baixa sensibilidade realizado duas semanas após a administração de mifepristona identificou correctamente todas as gravidezes contínuas numa coorte de 558 pessoas entre 64 e 70 dias de gestação; a taxa de falsos positivos foi de 15% (Whitehouse, Shochet, & Lohr, 2022). Uma meta-análise realizada em 2017, que incluiu sete estudos que examinaram o uso de testes de gravidez multiníveis para confirmar o sucesso do aborto quando se usa o regime combinado até à 9.ª semana de gestação, constatou que os testes identificaram todas as gravidezes continuadas (21 de 1599 participantes, 1,3%) e que a maioria das pessoas consegue realizar os testes em casa com sucesso (Raymond et al., 2017). Os testes de gravidez multinível medem a concentração aproximada de hcg na urina; um declínio na concentração de hcg entre um teste efectuado imediatamente antes e uma a duas semanas após o aborto medicamentoso indica o sucesso do aborto. Como os níveis de hcg caem naturalmente no final do primeiro trimestre, os testes de gravidez multinível só podem ser usados no início do primeiro trimestre (Chong, et al., 2020).
Duas revisões sistemáticas em 2019 compararam os resultados de mulheres que auto-avaliaram o sucesso do aborto medicamentoso domiciliário usando um teste urinário de gravidez de baixa sensibilidade ou semi-quantitativo em combinação com uma folha de instruções com ilustrações, lista de verificação de sintomas ou nenhuma lista de verificação com mulheres que receberam acompanhamento clínico de rotina (Baiju et al., 2019; Schmidt-Hansen et al., 2019). Ambas as revisões incluíram quatro estudos e mais de 5.000 mulheres e concordaram que não houve diferenças no sucesso do aborto, continuação da gravidez, necessidade de intervenção cirúrgica ou incidência de infecção ou hemorragia entre os grupos de auto-avaliação e acompanhamento clínico.
Aborto medicamentoso com misoprostol isolado
A OMS defende que o acompanhamento de rotina após o aborto medicamentoso com misoprostol isolado não é necessário (2024), aconselhando, em vez disso, que as pessoas devem ser adequadamente informadas sobre os sintomas de continuação da gravidez e outras razões médicas que justifiquem o regresso para acompanhamento, tais como hemorragia intensa prolongada, ausência de hemorragia com o tratamento médico do aborto, dor não aliviada por medicamentos ou febre. Devido à taxa de sucesso mais baixa (80-85%) e à taxa de continuação da gravidez mais elevada após o regime de misoprostol isolado para induzir o aborto antes da 13.ª semana de gestação (von Hertzen et al., 2007), mais pessoas que usam misoprostol isolado para o seu aborto medicamentoso necessitarão de cuidados adicionais do que aquelas que usam o regime combinado de mifepristona e misoprostol.
Avaliação de acompanhamento
Não foram realizados estudos para examinar diferentes estratégias para determinar o sucesso do aborto quando se usa o regime de misoprostol isolado. As possíveis estratégias de acompanhamento, extrapoladas a partir dos estudos sobre o regime combinado (detalhado acima) e dados programáticos, incluem a história clínica e exame físico, exame bimanual, ecografia e/ou um teste sérico ou urinário de gravidez para excluir a possibilidade de continuação da gravidez.
Referências
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