Actualizações Clínicas em Saúde Reprodutiva

Antibióticos profilácticos para o aborto medicamentoso

Última revisão: 30/09/2025

Recomendação:

  • Não se recomenda o uso rotineiro de antibióticos para as pessoas submetidas ao aborto medicamentoso.
  • As pessoas que apresentam sinais ou sintomas de transmissão sexual devem receber doses de tratamento com antibióticos. Os parceiros de indivíduos com infecções de transmissão sexual também precisam de ser tratados. O tratamento não deve atrasar o aborto medicamentoso.

Força da recomendação: Forte

Qualidade da evidência: Muito Baixa

Risco de infecção

O risco geral de infecção detectado em estudos prospectivos de aborto medicamentoso com o uso de mifepristona e misoprostol ou misoprostol isolado antes da 13.ª semana de gestação é de aproximadamente 0,01% a 0,5% (Cheng et al., 2025; Chen & Creinin, 2015; Upadhyay et. al, 2015). Estudos retrospectivos indicam taxas semelhantes de infecção após o aborto medicamentoso auto-administrado (Cheng et al., 2025). As infecções graves que necessitam de hospitalização são muito pouco frequentes, com taxas variando entre os 0,03% e os 0,09%, segundo grandes estudos retrospectivos nos Estados Unidos (Fjerstad et al., 2009; Henderson et al., 2005).

As taxas de infecção para o aborto medicamentoso durante ou após a 13.ª semana de gestação são mais difíceis de determinar uma vez que a febre é um efeito secundário frequente de doses repetidas de prostaglandinas. Os dados disponíveis reportam taxas de infecção de 1% a 3% após o aborto medicamentoso durante ou após a 13.ª semana de gestação (Achilles & Reeves, 2011).

Mortalidade por infecções

Ocorreram nove casos de septicemia por Clostridium fatal na América do Norte após abortos medicamentosos com mifepristona e misoprostol antes da 13.ª semana de gestação (Cohen et al., 2007; Fischer et al., 2005; Meites, Zane, & Gould, 2010; Sinave et al., 2002). Uma morte causada por Streptococcus do grupo A foi reportada na Austrália e uma morte devido a Clostridium sordelli foi reportada em Portugal (Reis et al., 2011) em mulheres que usaram mifepristona e misoprostol. Embora as mortes sejam motivo de preocupação, a taxa de mortalidade geral por infecções relacionadas com aborto medicamentoso permanece muito baixa, em cerca de 0,58 por 100.000 abortos medicamentosos).

Antibióticos profilácticos

Não houve nenhum ensaio controlado aleatorizado a examinar o efeito da profilaxia antibiótica nos resultados do aborto medicamentoso (Cheng et al., 2025; Low et al., 2012). Dado o elevado número de pessoas que precisariam de tomar antibióticos para prevenir uma infecção simples, associado aos custos e efeitos secundários dos antibióticos, o American College of Obstetricians and Gynecologists (2020), a Society of Family Planning (Cheng et al., 2025), o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (2022) e a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2024) não recomendam o uso rotineiro de antibióticos antes do aborto medicamentoso.

Antibióticos terapêuticos

As pessoas com elevado risco devem ser examinadas quanto à presença de infecções de transmissão sexual. As pessoas que apresentem sinais e sintomas de infecções de transmissão sexual devem receber serviços de aborto sem demora e tratamento antibiótico adequado de acordo com regimes baseados na evidência (Cheng et al., 2025; OMS, 2024; OMS, 2021). Os parceiros das pessoas com infecções de transmissão sexual também necessitam de tratamento (OMS 2025; OMS, 2021).

Recursos

Recomendações para o uso de antibióticos profilácticos nos cuidados de aborto seguro (cartão)

Referências

Achilles, S. L., & Reeves, M. F. (2011). Society of Family Planning Clinical Guideline 20102: Prevention of infection after induced abortion. Contraception, 83(4), 295-309.

American College of Obstetricians and Gynecologists. (2020). Practice Bulletin No. 225: Medication abortion up to 70 days of gestation. Obstetrics & Gynecology, 136:e31-47.

Chen, M. J., & Creinin, M. D. (2015). Mifepristone with buccal misoprostol for medical abortion: A systematic review. Obstetrics & Gynecology, 126(1), 12-21.

Cheng, T., Kumar, N., Laursen, L., Achilles, S. L., & Reeves, M. F. (2025). Society of Family Planning Clinical Recommendation: Prevention of infection after abortion and pregnancy loss. Contraception, 148.

Cohen, A. L., Bhatnagar, J., Reagan, S., Zane, S. B., D’Angeli, M. A., Fischer, M., … McDonald, L. C. (2007). Toxic shock associated with Clostridium sordellii and Clostridium perfringens after medical and spontaneous abortion. Obstetrics & Gynecology, 110(5), 1027-1033.

Fischer, M., Bhatnagar, J., Guarner, J., Reagan, S., Hacker, J. K., Van Meter, S. H., & Zaki, S. R. (2005). Fatal toxic shock syndrome associated with Clostridium sordellii after medical abortion. New England Journal of Medicine, 353(22), 2352-2360.

Fjerstad M., Trussell J., Sivin I., Lichtenberg E.S., & Cullins V. (2009). Rates of serious infection after changes in regimens for medical abortion. New England Journal of Medicine, 361(2), 145-51.

Henderson, J. T., Hwang, A. C., Harper, C. C., & Stewart, F. H. (2005). Safety of mifepristone abortions in clinical use. Contraception, 72(3), 175-178.

Low, N., Mueller, M., Van Vliet, H., & Kapp, N. (2012). Perioperative antibiotics to prevent infection after first‐trimester abortion. The Cochrane Database of Systematic Reviews (3), CD005217.

Meites, E., Zane, S., & Gould, C. (2010). Fatal Clostridium sordellii infections after medical abortions. New England Journal of Medicine, 363(14), 1382-1383.

Reis, T., Chaves, C., Soares, A., Moreira, M., Boaventura, L., & Ribiero, G. (2011). A Clostridium sordellii fatal toxic shock syndrome post-medical-abortion in Portugal. Paper presented at the 21st European Congress of Clinical Microbiology and Infectious Diseases (ECCMID).

Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. (2022). Best practice in abortion care. London: Royal College of Obstetricians and Gynaecologists Press.

Sinave, C., Le Templier, G., Blouin, D., Leveille, F., & Deland, E. (2002). Toxic shock syndrome due to Clostridium sordellii: A dramatic postpartum and postabortion disease. Clinical Infectious Diseases, 35(11), 1441-1443.

Upadhyay, U. D., Desai, S., Zlidar, V., Weitz, T. A., Grossman, D., Anderson, P., & Taylor, D. (2015). Incidence of emergency department visits and complications after abortion. Obstetrics & Gynecology, 125(1), 175-83.

World Health Organization. (2024). Abortion Care Guideline, 2nd ed. Geneva: World Health Organization.

World Health Organization. (2025). Guidelines for the management of asymptomatic sexually transmitted infections. Geneva: World Health Organization.

World Health Organization. (2021). Guidelines for the management of symptomatic sexually transmitted infections. Geneva: World Health Organization Press.