Actualizações Clínicas em Saúde Reprodutiva

Uso domiciliário de medicamentos até a 12.ª semana de gestação

Última revisão: 09/10/2025

Recomendação:

  • A mifepristona pode ser administrada numa unidade sanitária ou em casa.
  • O uso domiciliário de misoprostol após a administração de mifepristona ou num regime de misoprostol isolado pode ser feito até a 12.ª semana de gestação.
  • Após a 12.ª semana de gestação, o misoprostol deve ser administrado numa unidade sanitária.

Força da recomendação: Forte

Qualidade da evidência:

  • Até 70 dias de gestação: Alta
  • Mais de 70 dias de gestação: Muito Baixa

Uma revisão da Cochrane de 2025 avaliou a segurança e a eficácia da telemedicina para o aborto medicamentoso, em que tanto a mifepristona como o misoprostol foram administrados em casa até a 12ª semana de gestação, incluindo seis estudos controlados aleatorizados e 16 estudos não aleatorizados, abrangendo 131 278 pessoas (Cleeve et al., 2025). Esta revisão concluiu que o aborto medicamentoso realizado por telemedicina era tão seguro e eficaz quanto o aborto realizado presencialmente, embora os dados relativos a gestações com mais de 9 semanas sejam limitados. Muitos estudos documentaram a segurança e a eficácia da mifepristona e do misoprostol usados em casa para a auto-administração do aborto; ver 3.5.1: Aborto antes da 13ª semana: Auto-administração do aborto medicamentoso para um resumo desta evidência.

Regime combinado de mifepristona e misoprostol

Uso domiciliário de mifepristona

Uma revisão sistemática de 2024 avaliou a segurança e a eficácia da mifepristona administrada em casa como parte de um regime combinado de aborto medicamentoso até a 10ª semana de gestação (Gemzell-Danielsson et al., 2024). A revisão incluiu 6 estudos e dados de 54 233 pessoas que procuraram o aborto, não tendo constatado qualquer diferença em termos de segurança ou eficácia quando a mifepristona foi administrada em casa, em comparação com a administração numa unidade sanitária.

Uso domiciliário de misoprostol até 70 dias

Duas revisões sistemáticas confirmaram a segurança e a eficácia do misoprostol administrado em casa como parte de um regime de mifepristona-misoprostol até nove (Gambir et al., 2020) e 10 semanas de gestação (Schmidt-Hansen et al., 2020). Em Gambir et al. (2020), um exame de 19 estudos prospectivostrês ensaios clínicos aleatorizados e 16 ensaios comparativos não aleatorizados, incluindo 11.576 pessoas até 63 dias de gestaçãomostrou que as taxas de aborto completo e as taxas de eventos adversos eram as mesmas para o uso de misoprostol em casa e nas unidades sanitárias. As mulheres consideraram o uso domiciliário tão aceitável como o uso clínico. Schmidt-Hansen et al. (2020) compararam a segurança e a eficácia do misoprostol domiciliário para abortos até à 9.ª semana de gestação com os abortos para além da 9.ª semana, reportados em 6 estudos de coorte prospectivos e retrospectivos que incluíram 3.381 pessoas. A revisão não revelou qualquer diferença nas taxas de aborto completo ou nos eventos adversos, confirmando a segurança e a eficácia do uso domiciliário de misoprostol até à 10.ª semana. Desde essas revisões, vários estudos de coorte prospectivos e retrospectivos reportaram a segurança e a eficácia da telemedicina para a realização do aborto medicamentoso. No maior estudo prospectivo, realizado no Reino Unido, 52.142 mulheres que usaram misoprostol em casa para realizar abortos até 70 dias de gestação, reportaram uma taxa de aborto completo superior a 98% e uma taxa de complicações graves inferior a 1% (Aiken et al., 2021). Vários estudos de coorte prospectivos e retrospectivos de menor dimensão que avaliaram a segurança e a eficácia da provisão de aborto por telemedicina com uso domiciliário de misoprostol obtiveram resultados semelhantes (Chong et al., 2021; Pena et al., 2022; Reynolds-Wright et al., 2021; Upadhyay, Koenig, & Meckstroth, 2021; Upadhyay et al., 2022). O Colégio Real de Obstetras e Ginecologistas, 2019) e o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG, 2020) recomendam o uso domiciliário de misoprostol até 70 dias de gestação.

Uso domiciliário de misoprostol a partir das 10-13 semanas

Os dados relativos ao uso doméstico do misoprostol entre a 10.ª e a 13.ª semana de gestação são mais limitados. Um ensaio de não inferioridade comparou a eficácia de um regime de aborto medicamentoso com mifepristona seguido de uma dose única de misoprostol administrada em casa em mulheres com gestações de 64 a 70 dias com aquelas com gestações de 71 a 77 dias (Dzuba et al., 2020b). Os investigadores encontraram uma taxa de sucesso de 92% no grupo de idade gestacional inferior em comparação com 87% no grupo de idade gestacional superior, e uma continuação significativamente mais elevada das gravidezes no grupo de idade gestacional superior (9% em comparação com 4%), sugerindo a necessidade de doses adicionais de misoprostol em gestações com mais de 70 dias. Um estudo de coorte retrospectivo subsequente comparou as taxas de sucesso quando duas doses de misoprostol 800mcg foram administradas em casa, com quatro horas de intervalo, para gravidezes entre 64-70 dias e 71-77 dias (Dzuba et al., 2020a). Embora uma elevada perda de acompanhamento (25%) limite as conclusões que podem ser tiradas, os investigadores constataram taxas de sucesso de aborto superiores a 99% e 98%, respectivamente. Um pequeno estudo de coorte retrospectivo comparou a segurança e a eficácia do uso domiciliário de misoprostol para o aborto medicamentoso aos 57-63 dias de idade gestacional com o uso domiciliário aos 64-76 dias, em que as participantes do estudo auto-administraram uma dose única de misoprostol 800mcg por via vaginal, seguida de até quatro doses adicionais de 400mcg se não ocorresse hemorragia (Larsson, & Ronnberg, 2019). As taxas de sucesso foram de 96% e 94%, sem diferença no aborto incompleto, hemorragia excessiva ou intervenção cirúrgica. Um estudo de coorte retrospectivo adicional em que as mulheres auto-administraram duas doses de misoprostol 800mcg em casa para abortos medicamentosos até 77 dias registou uma taxa de sucesso semelhante (96%) (Kerestes et al., 2021). Um estudo de coortes prospectivo, realizado na Escócia, que reportou a segurança e eficácia da telemedicina para o aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol durante a pandemia de COVID-19 incluiu mulheres com gestações até às 12 semanas (Reynolds-Wright et al., 2021). Das 663 pessoas incluídas no estudo, apenas 21 (3%) apresentavam gestações entre 10 e 12 semanas. Quase todas as mulheres (98%) tiveram um aborto bem-sucedido; houve nove falhas de aborto (1,4%), das quais apenas uma ocorreu após as 10 semanas. Um estudo de coorte prospectivo que analisou a segurança e a eficácia do acompanhamento do aborto como modelo de auto-administração do aborto na Argentina, na Nigéria e no Sudeste Asiático — o estudo SAFE — incluiu 119 participantes com gestações entre 9 e 12 semanas que usaram misoprostol em casa como parte de um regime medicamentoso combinado; 87% concluíram com sucesso o seu aborto sem necessidade de intervenção adicional (Moseson et al., 2023). A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as pessoas grávidas possam auto-gerir as três partes componentes do processo de aborto medicamento–auto-avaliação para elegibilidade, auto-administração de medicamentos de aborto e gestão do processo de aborto e auto-avaliação do sucesso do aborto–até às 12 semanas de gestação, quando têm acesso a uma fonte de informação precisa e a um prestador de cuidados de saúde, se necessário (OMS, 2024).

Regime de misoprostol isolado

Embora nenhum estudo tenha comparado de forma directa a segurança e a eficácia do uso domiciliário de misoprostol num regime de misoprostol isolado com o uso em unidades sanitárias, vários estudos fornecem evidência para apoiar a segurança e a eficácia do misoprostol administrado em casa para o aborto medicamentoso. Vários estudos aleatorizados com grupos de misoprostol isolado (Blum et al., 2012; Ngoc et al., 2011; Sheldon et al., 2019) e vários estudos de coorte prospectivos de aborto medicamentoso com misoprostol até 9 (Carbonell, Valera, Velazco, Fernandez e Sanchez, 1997; Velazco et al, 2000), ou entre 9ª e 12ª semana de gestação (Carbonell et al., 2001), permitiram que as participantes auto-administrassem o misoprostol em casa, sem efeito sobre a segurança ou o sucesso do aborto medicamentoso. Estudos que examinam o acompanhamento do aborto ou a distribuição de misoprostol na comunidade para a auto-administração do aborto medicamentoso, reportaram taxas de sucesso do aborto com misoprostol que excedem as taxas de sucesso do aborto realizado em unidades sanitárias (Moseson et al., 2020b). No estudo SAFE, 98% das usuárias de misoprostol isolado em casa, com gestações até a 12ª semana, reportaram um aborto bem-sucedido sem intervenção cirúrgica (Moseson et al., 2022; Moseson et al., 2023). Dois estudos documentaram a segurança e a eficácia do aborto auto-administrado com misoprostol isolado, acedido através de distribuição comunitária até às 9 ou 10 semanas de gestação; as taxas de sucesso do aborto foram de 94-96%, sem registo de eventos adversos graves (Foster, Arnott e Hobstetter, 2017; Foster et al., 2022). Um estudo de coorte prospectivo realizado na Nigéria avaliou as taxas de sucesso em pessoas grávidas que adquiriram misoprostol a vendedores de medicamentos para auto-administrarem o seu aborto medicamentoso (Stillman et al., 2020). Apesar de terem recebido informações inadequadas sobre os medicamentos, o que esperar, ou onde e quando procurar cuidados adicionais, 94% da amostra reportou um aborto completo sem intervenção cirúrgica. Da amostra, uma participante precisou de uma transfusão de sangue.

Referências

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