Actualizações Clínicas em Saúde Reprodutiva

Controlo da dor para o aborto medicamentoso antes da 13.ª semana de gestação

Última revisão: janeiro de 2026

Recomendação:

  • Oferecer medicamentos para a dor a todas as pessoas submetidas ao aborto medicamentoso.
  • Recomendam-se os anti-inflamatórios não esteróides (AINE), administrados de forma profiláctica ou no momento em que as cólicas começam.
  • Medidas não farmacológicas de controlo da dor podem ser úteis.
  • Os analgésicos narcóticos não demonstraram ser eficazes no alívio da dor durante o processo de aborto medicamentoso e não são recomendados para uso rotineiro.
  • Não deve usar-se paracetamol, a menos que exista uma alergia ou contra-indicação para o uso de AINE.

Força da recomendação: Forte

Qualidade da evidência: Baixa

Dor durante o aborto medicamentoso antes da 13.ª semana de gestação

A dor é o efeito secundário mais comum do aborto medicamentoso (Fiala et al., 2014). Num estudo com 6755 mulheres que fizeram um aborto medicamentoso até aos 63 dias de gestação, 78,4% reportaram dor e cólicas moderadas ou intensas (Goldstone, Michelson & Williamson, 2012). Igualmente, uma revisão sistemática, realizada em 2006, de cinco grandes séries de casos britânicos e americanos de uso de analgesia durante o aborto medicamentoso concluiu que 75% das mulheres sofreram de dor suficientemente forte para necessitar de analgesia narcótica (Penney, 2006). Um estudo qualitativo da experiência das mulheres com dor no aborto medicamentoso realizado no Nepal, África do Sul e Vietname descobriu que as mulheres descreveram a dor como mais intensa do que a que experimentaram durante a menstruação e se manifestava em quatro padrões distintos: dor mínima ou inexistente; dor intensa breve, normalmente logo antes da expulsão; dor intermitente, semelhante a contracções; e dor constante por uma ou várias horas (Colwill et al., 2019). Mais de 75% das pacientes reportam a resolução da dor até 12 horas após a administração do misoprostol, sendo que os relatos aumentam para 90% até 24 horas (Friedlander et al., 2022). As características das pacientes associadas com mais dor incluem o aumento da idade gestacional, idade mais jovem da paciente, nuliparidade, nenhum parto vaginal anterior e história de dismenorreia (Dragoman et al., 2021; Kemppainen et al., 2020; Suhonen et al., 2011; Teal, Dempsey-Fanning, & Westhoff, 2007; Westhoff et al., 2000).

Há poucos ensaios a avaliar a eficácia das estratégias de controlo da dor durante o aborto medicamentoso antes da 13.ª semana de gestação. Nem a dor nem o seu tratamento são sistematicamente reportados em ensaios clínicos de aborto medicamentoso; onde esses dados são reportados, usaram-se vários regimes e protocolos de tratamento, tornando-se difícil a sua comparação (Fiala et al., 2014; Fiala et al, 2019; Jackson & Kapp, 2011; Reynolds-Wright, 2022).

Medicamentos para controlo da dor

Dois pequenos ensaios aleatorizados controlados indicam que o ibuprofeno é mais eficaz do que o placebo (Avraham et al., 2012) ou acetaminofeno (Livshits et al., 2009) no alívio da dor do aborto em mulheres com gravidez de menos de sete semanas de gestação. O pré-tratamento com ibuprofeno não é melhor para o tratamento da dor do que o tratamento após as cólicas começarem (Raymond et al., 2013). Um ensaio aleatorizado de três grupos comparou o ibuprofeno mais metoclopramida, tramadol ou placebo, administrados no momento da administração do misoprostol e novamente 4 horas mais tarde; verificou-se que o ibuprofeno mais metoclopramida e tramadol aliviaram a dor de forma mais eficaz do que o placebo, mas não resultaram em diferenças clinicamente significativas na dor relatada pelas participantes (Dragoman et al., 2021). Em mulheres com gravidezes até a 10ª semana de gestação, um ensaio aleatorizado controlado constatou que pregabalina (um análogo do ácido gama-aminobutírico) não reduziu os níveis máximos de dor quando tomado no momento de administração de misoprostol; no entanto, as mulheres que receberam pregabalina tiveram menor probabilidade de necessitar de ibuprofeno ou medicamentos analgésicos narcóticos e maior probabilidade de reportar satisfação com a analgesia do que as mulheres que receberam placebo (Friedlander et al., 2018). Um estudo aleatorizado não encontrou qualquer diferença na quantidade ou duração da dor experimentada pelas mulheres que receberam um medicamento opioide oral (oxicodona) para controlar a dor do aborto medicamentoso, em comparação com o placebo (Colwill et al., 2019). Os autores do estudo concluíram que, embora o fornecimento de medicamentos opiáceos de forma rotineira seja desnecessário, é razoável dar quatro ou menos comprimidos de oxicodona para as pessoas que os solicitarem. Um estudo realizado num hospital dividiu aleatoriamente as mulheres submetidas ao aborto medicamentoso em dois grupos: analgesia intravenosa controlada pela paciente para a dor, ou administração oral, intramuscular ou intravenosa de oxicodona para a dor (Kemppainen et al., 2022). Os resultados mostram que a maioria dos participantes em ambos os grupos utilizou medicamentos opiáceos; os participantes no grupo de analgesia controlada pelas pacientes eram mais propensos a caracterizar a dor como ligeira ou tolerável (21% em comparação com 6% no grupo a pedido), embora a dor máxima relatada fosse a mesma em ambos os grupos.

Controlo não farmacológico da dor

Num ensaio aleatorizado, a estimulação eléctrica transcutânea de alta frequência (TENS de 80Hz) aplicada ao abdómen e nas costas quando as cólicas começaram reduziu a dor do aborto das mulheres em comparação com placebo (Goldman et al., 2020). Outro ensaio aleatorizado não constatou qualquer benefício da acupunctura auricular ou da acupressão na melhoria da dor do aborto medicamentoso, quando comparada com placebo (Westhoff et al., 2021). Outras estratégias não farmacológicas de controlo da dor para o aborto medicamentoso antes de 13 semanas de gestação não foram objecto de ensaios comparativos. No entanto, os especialistas recomendam medidas não farmacológicas adjuvantes para melhorar o conforto das pessoas durante um aborto medicamentoso, incluindo um esclarecimento exaustivo sobre dor e sangramento esperados (Teal, Dempsey-Fanning, & Westhoff, 2007), um ambiente favorável/encorajador e a aplicação de uma compressa quente ou botija de água quente no baixo-ventre (Akin, et al., 2001). Estes métodos devem ser usados como complemento, e não como substitutos, dos medicamentos (fármacos) para controlo da dor.

Recursos

Tabela de medicamentos para a dor
Contínuo de profundidade da sedação: Definição de anestesia geral e níveis de sedação/analgesia

Referências

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Colwill, A. C., Bayer, L. L., Bednarek, P., Garg, B., Jensen, J., & Edelman, A. (2019). Opioid analgesia for medical abortion: A randomized trial. Obstetrics & Gynecology, 134(6), 1163-1170.

Dragoman, M.V., Grossman, D., Nguyen, M.H., Habib, N., Kapp, N., Tamang, A., Bessenaar, T., Duong, L.D., Gautam, J., Yoko, J.L., Hong, M., & Gulmezoglu, M. (2021). Two prophylactic pain management regimens for medical abortion ≤ 63 days’ gestation with mifepristone and misoprostol: A multicenter, randomized, placebo-controlled trial. Contraception, 103(3), 163-170.
Fiala, C., Agostini, T., Bombas, S., Cameron, R., Lertxundi, M., Lubusky, M., … & Gemzell-Danielsson, K. (2019). Management of pain associated with up-to-9-weeks medical termination of pregnancy (MToP) using mifepristone-misoprostol regimens: Expert consensus based on a systematic literature review. Journal of Obstetrics and Gynecology, 1-11.

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