Recomendação:
- O diagnóstico de uma gravidez ectópica deve ser excluído em pessoas que tenham uma história clínica ou exame preocupante.
Força da recomendação: Forte
Qualidade da evidência: Baixa
Epidemiologia
Tanto em locais com poucos ou muitos recursos, as taxas de gravidez ectópica variam entre menos de 1% e 2% das gravidezes (Al Naimi et al., 2021; Anyanwu & Titilope, 2021; Berhe et al., 2021; Ghimire, 2020; Stulberg et al., 2013; Tao, Patel, & Hoover, 2016; Trabert et al., 2011; Webster et al., 2019), e são ainda mais baixas em pessoas grávidas que procuram o aborto (Aiken et al., 2021; Cleland et al., 2013; Duncan, Reynolds-Wright, & Cameron, 2022). As variantes raras incluem a gravidez ectópica cervical, na cicatriz da cesariana e intramural; a incidência exacta destas variantes é desconhecida (Hu et al., 2025; Nijjar, Jauniaux, & Jurkovic, 2023; Ntafam, Sanusi-Musa, & Harris, 2023; Rayamajhi et al., 2023). A gravidez ectópica é responsável por 2,7% das mortes relacionadas com a gravidez nos Estados Unidos (Creanga et al., 2017). Ectopic pregnancy accounts for approximately 1% of pregnancy-related deaths in low resource settings where other causes of maternal death are more prevalent (Khan et al., 2006).
Factores de risco
Os maiores factores de risco associados à gravidez ectópica em uma pessoa grávida são apresentados na tabela abaixo:
| Factor de risco | Risco de gravidez ectópica na gravidez actual |
| Gravidez ectópica anterior | 10-25% |
| Antecedentes de cirurgia às trompas, incluindo esterilização | 25-50% |
| Dispositivo intra-uterino (DIU) inserido | 25-50% |
(American College of Obstetricians and Gynecologists [ACOG], 2018; Ankum et al., 1996; Barnhart, 2009; Gaskins et al., 2018; Jacob, Kalder, & Kostev, 2017)
Outros factores de risco incluem antecedentes de infertilidade e de utilização de tecnologia reprodutiva assistida, antecedentes de infecções pélvicas, múltiplos parceiros sexuais, idade precoce na primeira relação sexual, idade superior a 30 anos e tabagismo (ACOG, 2018; Ankum et al., 1996; Barnhart, 2009, Gaskins et al., 2018; Brim et al., 2024; Olamijulo et al., 2020). O uso de contraceptivos orais reduz o risco de gravidez ectópica (Brim et al., 2024).
Rastreio
Metade das gravidezes ectópicas ocorrem em pessoas sem factores de risco e com uma apresentação clínica benigna em países de rendimentos elevados (Stovall et al., 1990), enquanto em países de baixo e médio rendimento, as pessoas são mais susceptíveis de apresentar características clínicas agudas, incluindo instabilidade hemodinâmica (Olamijulo et al., 2020). Para além de recolherem informações sobre a data da última menstruação e a regularidade do ciclo menstrual, os provedores de cuidados de saúde devem avaliar os factores de risco para gravidez ectópica durante a história clínica e exame físico, tais como a gravidez ectópica anterior, laqueação das trompas, cirurgia às trompas ou um DIU inserido. O exame também deve incluir sintomas e sinais de gravidez ectópica encontrados durante a história clínica e exame físico, tais como massa anexial ou dor no exame ou sangramento vaginal (Kaislasuo & Heikinheimo, 2025).
Algumas pessoas apresentam-se para cuidados de aborto muito cedo na gravidez, antes de haver provas definitivas de uma gestação intra-uterina por ecografia. Uma revisão sistemática realizada em 2020, incluindo três estudos comparativos de coortes, retrospectivos, de 5315 pessoas que solicitaram aborto medicamentoso ou por aspiração numa fase precoce, constatou que não houve aumento na incidência de diagnóstico incorrecto de gravidez ectópica ou aborto incompleto quando o aborto foi iniciado antes da prova de gravidez intra-uterina por ecografia em mulheres que não apresentavam sinais ou sintomas de uma gravidez ectópica (Schmidt-Hansen et al., 2020). Dois pequenos estudos de coorte retrospectivos subsequentes confirmaram que, entre as pessoas com gravidezes muito precoces e sem factores de risco de gravidez ectópica importantes, não há aumento do diagnóstico de gravidez ectópica quando o aborto medicamentoso é iniciado antes de haver evidência de gravidez por ecografia (Goldberg, et al., 2022; Jar-Allah et al., 2022).
Tratamento de pessoas de alto risco
A ecografia e teste de hCG são frequentemente utilizados para ajudar a avaliar a localização da gravidez (Fields & Hathaway, 2017; Nijjar, Jauniaux, & Jurkovic, 2023). Em alguns casos, a maneira mais rápida de confirmar uma gravidez intra-uterina é realizar a aspiração intra-uterina; a presença de produtos da concepção no aspirado uterino confirma que que a gravidez era intra-uterina. As pessoas com sinais e sintomas suspeitos ou um exame físico preocupante devem ser diagnosticadas e tratadas o mais cedo possível ou transferidas imediatamente para uma unidade sanitária que possa tratar gravidez ectópica. O diagnóstico precoce e tratamento da gravidez ectópica podem ajudar a preservar a fertilidade e salvar vidas.
Rastreio pós-procedimento
Para as pessoas submetidas a aspiração intra-uterina, o aspirado deve ser recolhido e examinado para confirmar a presença de produtos da concepção (consulte 3.4 Exame dos produtos da concepção). Se não forem observados produtos da concepção, deve considerar-se um diagnóstico de gravidez ectópica.
Referências
Aiken, A., Lohr, P.A., Lord, J., Ghosh, N., & Starling, J. (2021). BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology, 128(9), 1464-1474.
Al Naimi, A., Moore, P., Bruggmann, D., Krysa, L., Louwen, F., & Bahlmann, F. (2021). Ectopic pregnancy: A single-center experience over ten years. Reproductive Biology and Endocrinology, 19(1), 79
American College of Obstetricians and Gynecologists. (2018). Practice bulletin No 193: Tubal ectopic pregnancy. Obstetrics & Gynecology 131, e91-e103.
Ankum, W. M., Mol, B. W. J., Van der Veen, F., & Bossuyt, P. M. M. (1996). Risk factors for ectopic pregnancy: A meta-analysis. Fertility and Sterility, 60(6), 1093-9.
Anyanwu, M., & Titilope, G. (2021). Ectopic pregnancy at the Gambian tertiary hospital. African Health Sciences, 21(1), 295-303.Barnhart, K. T. (2009). Clinical practice. Ectopic pregnancy. New England Journal of Medicine, 361(4), 379-387.
Berhe, E.T., Kiros, K., Hagos, M.G., Gesesew, H.A., Ward, P.R., & Gebremeskel, T.G. (2021). Ectopic pregnancy in Tigray, Ethiopia: A cross-sectional survey of prevalence, management, outcomes, and associated factors. Journal of Pregnancy, 4443117. Doi: 10.1155/2021/4443117.
Brim, A. C. S., Barretto, V. R. D., Reis-Oliveira, J. G., da Silveira de Araújo, R. B., & Romeo, A. C. D. C. B. (2025). Risk factors for ectopic pregnancy occurrence: Systematic review and meta-analysis. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 168(3), 919–932.
Cleland, K., Creinin, M. D., Nucatola, D., Nshom, M., & Trussell, J. (2013). Significant adverse events and outcomes after medical abortion. Obstetrics & Gynecology, 121(1), 166-171.
Creanga, A. A., Syverson, C., Seed, K., & Callaghan, W. M. (2017). Pregnancy-related mortality in the United States, 2011-2013. Obstetrics & Gynecology, 130(2), 366-373.
Duncan, C.I., Reynolds-Wright, J.J., & Cameron, S.T. (2022). Utility of a routine ultrasound for detection of ectopic pregnancies among women requesting abortion: A retrospective review. BMJ Sexual and Reproductive Health, 48(1), 22-27.
Fields, L., & Hathaway, A. (2017). Key concepts in pregnancy of unknown location: Identifying ectopic pregnancy and providing patient-centered care. Journal of Midwifery and Womens Health, 62(2), 172-179.
Gaskins, A. J., Missmer, S. A., Rich-Edwards, J. W., Williams, P. L., Souter, I., & Chavarro, J. E. (2018). Demographic, lifestyle, and reproductive risk factors for ectopic pregnancy. Fertility and Sterility, 110(7), 1328-1337.
Ghimire, S.P. (2021). Study of ectopic pregnancy at tertiary care hospital in Province 1 of Nepal. Journal of Nepal Health Research Council, 18(4), 698-701.
Goldberg, A.B., Fulcher, I.R., Fortin, J., Hofer, R.K., Cottrill, A., Dethier, D., Gilbert, A., Janiak, E., & Roncari, D. (2022). Mifepristone and misoprostol for undesired pregnancy of unknown location. Obstetrics & Gynecology, 139(5), 771-780.
Hu, C., Chawla, K., Hostetter, K., & Mark, K. (2025). Cesarean delivery scar ectopic pregnancy diagnosed after no-test abortion: A case report. Contraception, 152. 111206.
Jacob, L., Kalder, M., & Kostev, K. (2017). Risk factors for ectopic pregnancy in Germany: a retrospective study of 100,197 patients. German Medical Science, 15, Doc19.
Jar-Allah, T., Hognert, H., Kocher, L., Berggren, L., Fiala, C., Milsom, I., & Gemzell-Danielsson, K. (2022). Detection of ectopic pregnancy and serum beta hCG level in women undergoing very early medical abortion: A retrospective study. European Journal of Contraception and Reproductive Health Care, 27(3), 240-246.
Kaislasuo, J., & Heikinheimo, O. (2025). Safety and accuracy of dating unwanted pregnancies and detecting ectopic pregnancy with the RCOG decision aid without routine ultrasound – a retrospective analysis form a large abortion service. The European Journal of Contraception & Reproductive Health Care, 30(2), 93–96.
Khan, K. S., Wojdyla, D., Say, L., Gulmezoglu, A. M., & Van Look, P. F. (2006). WHO analysis of causes of maternal death: A systematic review. The Lancet, 367(9516), 1066-1074.
Nijjar, S., Jauniaux, E., & Jurkovic, D. (2023). Definition and diagnosis of cesarean scar ectopic pregnancies. Best Practice & Research Clinical Obstetrics & Gynaecology, 89, 102360.
Ntafam, C. N., Sanusi-Musa, I., & Harris, R. D. (2023). Intramural ectopic pregnancy: An individual patient data systematic review. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology: X, 21, 100272.
Olamijulo, J.A., Okusanya, B.O., Adenekan, M.A., Ugwu, A.O., Olorunfemi, G., & Okojie, O. (2020). Ectopic pregnancy at the Lagos University Teaching Hospital, Lagos, South-Western Nigeria: Temporal trends, clinical presentation and management outcomes from 2005 to 2014. Nigerian Postgraduate Medical Journal, 27, 177-83.
Rayamajhi, A., Rayamajhi, A. K., Adhikari, A., Basnet, P., & Tiwari, A. (2023). Cervical Ectopic Pregnancy with Unsupervised Intake of Medications for Abortion: A Case Report. JNMA: Journal of the Nepal Medical Association, 61(267), 897–900.
Schmidt-Hansen, M., Cameron, S., Lord, J., & Hasler, E. (2020). Initiation of abortion before there is definitive ultrasound evidence of intrauterine pregnancy: A systematic review with meta-analyses. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica 99, 451-458.
Stovall, T. G., Kellerman, A. L., Ling, F. W., & Buster, J. E. (1990). Emergency department diagnosis of ectopic pregnancy. Annals of Emergency Medicine, 19(10), 1098-1103.
Stulberg, D., Cain, L. R., Dahlquist, I., & Lauderdale, D. S. (2013). Ectopic pregnancy rates in the Medicaid population. American Journal of Obstetrics & Gynecology, 208(4), 274.e1-7.
Tao, G., Patel, C., & Hoover, K. W. (2016). Updated estimates of ectopic pregnancy among commercially and Medicaid-insured women in the United States, 2002-2013. Southern Medical Journal, 110(1), 18-24.
Trabert, B., Holt, V. L., Yu, O., Ven Den Eeden, S. K., & Scholes, D. (2011). Population-based ectopic trends, 1993-2007. American Journal of Preventative Medicine, 40(5), 556-560.
Webster, K., Eadon, H., Fishburn, S, & Kumar, G. (2019). Ectopic pregnancy and miscarriage: diagnosis and initial management: summary of updated NICE guidance. British Medical Journal, 367, 16283.
