Recomendação:
- Oferecer medicamentos para a dor a todas as pessoas submetidas ao aborto medicamentoso.
- Recomenda-se anti-inflamatórios não esteróides (AINE) e deve-se iniciar com misoprostol.Para além dos AINE, devem oferecer-se analgésicos narcóticos e ansiolíticos.
- As medidas de controlo da dor não farmacológicas podem ser úteis.
- Pode oferecer-se anestesia regional e anestesia controlada pela paciente caso haja disponibilidade.
Força da recomendação: Forte
Qualidade da evidência: Muito Baixa
Dor durante o aborto medicamentoso durante ou após a 13.ª semana de gestação
Em vários estudos de coortes de aborto medicamentoso usando análogos da prostaglandina E1 (misoprostol, gemeprost) durante ou após a 13.ª semana de gestação, a maioria das pessoas necessitou de medicamentos para dor (Ashok et al., 2004; Gemzell-Danielsson & Östlund, 2000; Hamoda et al., 2004; Rose, Shand, & Simmons, 2006). Factores como a nuliparidade, a idade gestacional avançada, maior número de doses de misoprostol e intervalos entre a indução e o aborto mais longos estão associados ao aumento da dor durante o aborto medicamentoso (Hamoda et al., 2004; Louie et al., 2017; Rydelius et al., 2025). A dor raramente começa após a administração de mifepristona; as cólicas normalmente começam após a administração de misoprostol e normalmente atingem o ponto máximo com a expulsão (Mentula, Kalso, & Heikinheimo, 2014).
Medicamentos para controlo da dor
Existem evidências limitadas relativas ao regime medicamentoso ideal para o controlo da dor para o aborto medicamentoso durante ou após a 13.ª semana de gestação (Jackson & Kapp, 2020). Um ensaio aleatorizado de 74 mulheres durante ou após a 13.ª semana de gestação, submetidas ao aborto com mifepristona e misoprostol tratou as pacientes profilacticamente com um AINE (diclofenac) ou com paracetamol mais codeína no momento da administração de misoprostol. Não houve nenhuma diferença na dor reportada entre os dois grupos, mas o pré-tratamento com AINE reduziu a necessidade de opiáceos intravenosos subsequentes (Fiala et al., 2005). Um segundo ensaio aleatorizou 54 mulheres submetidas a aborto entre a 14ª – 24ª semana de gestação para receberem o AINE celecoxib ou um placebo no momento de administração de misoprostol. As pessoas do grupo de AINE tiveram níveis de dor significativamente inferiores no momento do aborto; no entanto, quase metade de particpantes de ambos os grupos reportaram dor intensa e não houve diferença no uso de analgesia adicional entre os dois grupos (Tintara, Voradithi, & Choobun, 2018). Um pequeno ensaio não aleatorizado, que incluiu 40 participantes, comparou o controlo da dor com analgesia controlada pela paciente com piritramida a um protocolo em etapas administrado por enfermeiros que incluía paracetamol, ibuprofeno, tramadol, metamizol e meptazinol/brometo de hioscina (Tascon Padron et al., 2023). O estudo constatou taxas mais elevadas de dor e náuseas no grupo da piritramida, embora a satisfação com o tratamento da dor em ambos os grupos tenha sido semelhante.
No maior estudo de coortes disponível, foi oferecida a 1002 mulheres submetidas ao aborto com mifepristona e misoprostol durante ou após a 13.ª semana de gestação uma combinação de analgésicos narcóticos orais e parentéricos e AINE para o controlo da dor (Ashok et al., 2004). Os autores do estudo reportaram a proporção de mulheres que não usaram analgesia (18%) e aquelas que usaram paracetamol mais di-hidrocodona (70%), morfina parentérica (7%) ou AINE (5%) para alívio da dor; a dor das mulheres ou a satisfação com o controlo da dor não foram reportados. Num estudo de coorte de menor dimensão, 425 participantes que receberam paracetamol e AINE de forma profilática e contínua optaram por várias modalidades diferentes de controlo da dor para a dor intermitente durante o aborto medicamentoso com mifepristona e misoprostol. A pontuação de dor das mulheres (numa escala visual analógica de 100 pontos) diminuiu cerca de 15 pontos após medicamentos opioides, 35 pontos após o bloqueio paracervical e 50 a 60 pontos quando o bloqueio paracervical foi administrado após a medicação opióide (Rydelius et al., 2026). Dois pequenos estudos comparativos que examinaram o uso do bloqueio paracervical durante o aborto medicamentoso na 13.ª semana de gestação ou após esta não encontraram qualquer melhoria na dor com esta modalidade (Andersson et al., 2016; Winkler et al., 1997).
O Ipas recomenda um regime combinado envolvendo AINE profilácticos administrados no momento do uso do misoprostol, além de analgésicos narcóticos orais e/ou parentéricos (Edelman e Mark, 2017). A anestesia regional (epidural) e controlada pela paciente são métodos seguros e eficazes de controlo da dor. Podem ser oferecidas se estiverem disponíveis o pessoal, monitoria e equipamento necessários, (Maggiore et al., 2016; Smith et al., 2016; World Health Organization [WHO], 2024).
Controlo não farmacológico da dor
Não existem ensaios comparativos que avaliem o benefício das estratégias não farmacológicas de controlo da dor para o aborto medicamentoso durante ou após a 13.ª semana de gestação. No entanto, os especialistas recomendam medidas não farmacológicas adjuvantes para melhorar o conforto das mulheres durante um aborto medicamentoso, incluindo um esclarecimento exaustivo sobre a dor e sangramento esperados, um ambiente favorável e aplicação da compressa quente ou botija de água quente no baixo-ventre (Akin et al., 2001). Estes métodos são complementares, não substitutos, dos medicamentos para controlo da dor.
Recursos
Tabela de medicamentos para a dor
Contínuo de profundidade da sedação: Definição de anestesia geral e níveis de sedação/analgesia
Referências
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World Health Organization. (2024). Abortion care guideline, 2nd ed. Geneva: World Health Organization.
